|
O Herpesvírus Bovino 1 (HVB 1) é considerado
um dos principais patógenos de bovinos, sendo
responsável por grandes prejuízos econômicos à
exploração pecuária (KIRKBRIDE, 1985). Apesar
de representar apenas um sorotipo, o HVB 1 pode
ser molecularmente subdividido em subtipos. Uma
estreita correlação entre o quadro clínico e o
subtipo molecular é de difícil estabelecimento.
Entretanto, o subtipo HVB 1.1 (IBR-like) compreende
as amostras víricas implicadas em problemas respiratórios
e reprodutivos; os subtipos HVB 1.2a e HVB 1.2b
(IPV-like) estão relacionados a infecções genitais,
mas também podem ser isolados do trato respiratório.
Uma correlação possível de ser realizada refere-se
aos subtipos HVB 1.3a e HVB 1.3b, atualmente reclassificados
como HVB5, que somente foram isolados, até o momento,
a partir do SNC de bezerros e animais adultos
com quadro clínico neurológico (PAULI et al.,1981;
ROEHE et al., 1997).
O fator mais importante na cadeia epidemiológica
do HVB é o estabelecimento do estado de latência.
Nesta situação o vírus permanece "silenciosamente"
em células ganglionares do animal infectado. O
vírus em latência não é detectado por procedimentos
virológicos convencionais e pode apresentar subseqüentes
e intermitentes episódios de re-excreção viral,
não acompanhados de sintomas clínicos. O estabelecimento
de imunidade celular e humoral, pós-infecção ou
mesmo pós-vacinação, não elimina o estado de latência.
Com isto o animal uma vez infectado por HVB será
portador e potencial transmissor do vírus por
toda a sua vida produtiva (ACKERMANN et al., 1982;
ROCK, 1993)
Os HVB estão presentes em plantéis de bovinos
de praticamente todo o mundo. As taxas de rebanhos
e animais portadores do vírus apresentam grandes
variações na dependência da região estudada, tipo
de exploração pecuária (corte, leite, intensiva,
extensiva), tipo de amostragem e metodologia de
diagnóstico utilizada.
Na Europa, alguns países com baixa freqüência
de rebanhos e animais sororreagentes obtiveram
a condição de países livres e/ou doença sob rígido
controle graças a um programa intensivo de erradicação
que inclui o uso de vacinas com marcadores genéticos,
testes sorológicos e sacrifício dos animais portadores
do vírus. Em outros países europeus a prevalência
de anticorpos contra HVB-1, indicando a presença
de animais portadores do vírus, oscila entre 20%
a 80% dos rebanhos bovinos (ACKERMANN et al.,1990;
STRAUB,1991; VAN OIRSCHOT et al.,1996).
Na América do Norte a infecção por HVB-1 apresenta
alta prevalência. Nos Estados Unidos e no Canadá,
onde a infecção tem caráter endêmico, não
existe uma política nacional de erradicação. Estes
países optaram pelo controle por meio de programas
imunoprofiláticos, com vacinas vivas e inativadas.
Porém, por iniciativa privada, rebanhos livres
destinados principalmente a produzir sêmen, embriões
e animais para exportação podem ser encontrados
em algumas regiões (WYLER et al, 1990).
Com relação à América do Sul, levantamentos epidemiológicos,
realizados na Argentina, Peru, Colômbia e Chile,
demonstram o caráter endêmico das infecções por
HVB-1. Nos vários estudos a freqüência de
animais sororreagentes varia consideravelmente
de 13% a 75%, com média entre 40% e 50%, na dependência
do tipo de amostragem e metodologia de diagnóstico
utilizada (FONDEVILA et al., 1981; GALARZA & PERIOLO,
1983; GRAFFITH et al.,1986; RIEDMANN et al., 1996).
No Brasil, levantamentos sorológicos realizados,
por todo o país têm demonstrado alta frequência
de animais e rebanhos soropositivos com índices
que variam de 10,7% a 85,7% (GALVÃO et al., 1963;
WIZIGMANN et al., 1972; MUELLER et al.,1981; RAVAZOLLO
et al.,1989; LOVATO et al.,1995; VIDOR et al,1995).
Ainda no Brasil, RICHTZENHAIN et al (1998) em
um levantamento sorológico realizado em 2.447
amostras de soro bovino provenientes de 56 rebanhos
distribuídos pelos estados do Paraná, São Paulo,
Minas Gerais, Riode Janeiro, Mato Grosso do Sul
e Rio Grande do Sul encontraram uma frequência
de 69% (1.681 / 2.447) de animais soropositivos.
No Laboratório de Virologia Animal da Universidade
Estadual de Londrina, com os objetivos de rotina
diagnósticos e como parte de projetos de pesquisas
de cunho epidemiológico, são utilizadas
as metodologias de Soroneutralização e Ensaio
Imunoenzimático (ELISA) para detecção de anticorpos
anti-HVB-1. A Tabela 1 apresenta os resultados
obtidos em 7.986 amostras de soros bovinos analisadas
de 1996 a 1998, distribuídos conforme a região
de origem.
TABELA 1. Distribuição da freqüência
de amostras de soro bovino, positivas e negativas
para anticorpos anti-HVB-1, identificadas pelo
teste de ELISA, Brasil, 1998.
| ELISA |
| ESTADO |
POS (%) |
NEG (%) |
TOTAL |
| PR |
2.236 (54.3) |
1.881 (45.7) |
4.117 |
| RS |
164 (44.4) |
205 (55.6) |
369 |
| MG |
45 (84.9) |
8 (15.1) |
53 |
| SP |
277 (74.9) |
93 (25.1) |
370 |
| RJ |
17 (70.8) |
7 (29.2) |
24 |
| RO |
52 (91.2) |
5 (8.8) |
57 |
| MS |
930 (75.8) |
296 (24.2) |
1.226 |
| MT |
535 (75.7) |
172 (24.3) |
707 |
| SC |
63 (42.3) |
86 (57.7) |
149 |
| GO |
675 (73.8) |
239 (26.2) |
914 |
| TOTAL |
4.994 (62.5) |
2.992 (37.5) |
7.986 |
As freqüências de animais e rebanhos soropositivos
indicam que no Brasil a infecção por HVB 1 apresenta
caráter endêmico, tanto em plantéis destinados
à produção de leite quanto de carne, e esta situação
epidemiológica praticamente inviabiliza, pelo
menos a curto prazo, a adoção de uma política
nacional de erradicação.
As infecções por HVB-1 são agrupadas em duas entidades
clínicas denominadas genericamente de Rinotraqueíte
Infecciosa Bovina (IBR) e Vulvovaginite Pustular
Infecciosa Bovina (IPV). Entretanto, estas denominações
não revelam todas as possíveis manifestações clínicas
em bovinos infectados por este vírus.
Sob a denominação de IBR/IPV, o HVB-1 tem sido
isolado a partir de animais expressando várias
sintomatologias clínicas distintas como: i) Problemas
respirátorios compreendendo o trato respiratório
superior e em algumas circunstâncias o inferior;
ii) infecções genitais (vulvovaginite e balanopostite);
iii) reprodutivas; iv) metrites; v) conjuntivites;
vi) diarréias; vii) mastites; e viii) encefalites
(HVB5) (FENNER, 1987; WITTMANN,1989; STRAUB,1990).
No âmbito reprodutivo, as formas de apresentação
clínica das infecções pelo HVB-1, ou mesmo recorrência
do estado de latência, são muio diversas,
determinando redução dos índices reprodutivos
dos plantéis infectados. Tanto o útero e ovários
quanto o concepto podem sofrer conseqüências
diretas da infecção pelo HVB-1. O vírus pode atingir
estas estruturas basicamente por duas maneiras:
i) por viremia, posterior à primo-infecção, ou
recrudescência do estado de latência viral; ii)
deposição direta do vírus no útero através da
monta natural por touro excretando o vírus ou
pela inseminação artificial com sêmen contaminado
(KAHRS, 1977; LUDWIG, 1983; MILLER, 1991)
Na dependência das estruturas envolvidas e do
estadio gestacional, as infecções por HVB 1 podem
determinar quadros de: i) endometrite necrosante
com infertilidade temporária; ii) ooforite com
necrose e hemorragia do ovário e mesmo corpo lúteo,
queda na concentração de progesterona e falha
na prenhez; iii) mortalidade embrionária do 7º
ao 15º dia, com retorno ao cio a intervalo
regular; iv) mortalidade embrionária posterior
ao 15º dia, com retorno ao cio a intervalo
irregular; v) mortalidade fetal com aborto e,
raramente, mumificação; vi) natimorto; vii) nascimento
de animais fracos e mortalidade neonatal (CANANT,
1984 e 1985; KIRKBRIDE,1985; MILLER & VANDER MARTINS,
1986; MILLER,1991; KASTELIC,1994; SPIRE et al.,
1995).
A infecção pelo HVB-1 em plantéis soronegativos
trará prejuízos econômicos imediatos, com a perda
e/ou o custo de tratamento de animais jovens com
problemas respiratórios e com as mortalidades,
embrionária e fetal, que ocorrem nos rebanhos
que apresentam problemas reprodutivos. Em plantéis
constituídos por animais infectados, mesmo que
em estado de lactência, o custo da infecção se
manifestará pelo aparecimento de sintomas clínicos
em animais jovens, em animais de reposição e também
nos animais que, por não-exposição ou não-recrudescência
do estado de lactência, são soronegativos. Em
ambas as situações, na ocorrência de distúrbios
reprodutivos o aumento do intervalo entre partos
bem como, em caso de inseminação artificial, o
número de ampolas necessárias por prenhez positiva
também devem ser considerados em uma análise dos
custos da infecção.
IMUNIDADE ADQUIRIDA CONTRA INFECÇÕES VIRAIS
De uma forma bem simplificada podemos, academicamente,
subdividir a imunidade adquirida ou adaptativa
em humoral e celular. A imunidade humoral tem
como principal célula o Linfócito B e como fator
solúvel mais importante o anticorpo ou imunoglobulina.
A imunidade celular pode ser inespecífica e específica.
Na imunidade celular inespecífica atuam diversas
células como macrófagos, monócitos e células natural
killers (matadoras naturais), entre outras, e
interferon e linfocinas como fatores solúveis.
A imunidade celular específica contra viroses
é realizada por Linfócitos T citotóxicos que também
são ativados por linfocinas.
O processamento, pelo sistema imunológico, de
antígenos virais vivos apresenta algumas diferenças
em relação a antígenos virais inativados ou mortos.
Antígenos vivos, provenientes de infecção natural
ou de vacinas vivas atenuadas, devido a sua replicação
nas células infectadas, resultam na produção endógena
de proteínas virais que são associadas à classe
I do MHC (Complexo Principal de Histocompatibilidade).
Desta foma a resposta imune celular é ativada
através de linfócitos T com marcadores CD8 + (T
citotóxicos). Paralelamente, estes antígenos também
são associados à classe II do MHC ativando células
que apresentam marcadores CD4+ (T auxiliares),
com conseqüente ativação de Linfócitos B,
levando ainda a uma resposta humoral com produção
de anticorpo.
O processamento de antígenos virais inativados,
sem capacidade de replicação, produz proteínas
solúveis que são associadas à classe II do MHC,
resultando na produção de anticorpos. Entretanto,
como os linfócitos T CD8 + não são ativados, não
há resposta imune celular do tipo citotóxica.
IMUNOLOGIA DAS INFECÇÕES POR HERPESVÍRUS
Nas infecções herpéticas agudas, humanas e animais,
são importantes tanto a imunidade humoral quanto
a imunidade celular. Na resposta imune humoral
os anticorpos, por impedir a ligação e a penetração
do vírus à célula hospedeira, são responsáveis
pela neutralização viral. Os anticorpos também
estão envolvidos na lise de células infectadas
que expressam antígenos virais em sua superfície.
Esta lise pode ser mediada pelo complemento ou
por processo citotóxico dependente de anticorpo.
A imunidade celular inespecífica é exercida por
uma série de células efetoras como macrófagos
e neutrófilos polimorfonucleados, entre outras
células, que eliminam as células infectadas por
vírus, tanto direta quanto indiretamente, por
meio da interação com anticorpos.
Na reativação de uma infecção herpética em animais
portadores, ou seja, quando o vírus sai do estado
de latência, o HVB-1 promove a formação de pontes
intercelulares. Desta forma o vírus consegue passar
de célula a célula sem entrar em contato com o
espaço intercelular e liquídos corporais, não
sendo assim disponível para atuação de anticorpos.
Nesta situação, em termos imunológicos assume
grande importância a imunidade celular citotóxica,
que é capaz de destruir as células infectadas
impedindo o transporte viral, bem como sua eliminação
no meio ambiente e, animais susceptíveis.
Em resumo podemos dizer que os anticorpos são
fundamentais na prevenção da infecção enquanto
a imunidade celular citotóxica está diretamente
relacionada à recuperação da infecção e, indiretamente,
à redução da transmissão. Contudo, nenhum destes
eventos ocorre isoladamente no organismo. Há a
necessidade de uma harmonia entre as imunidades
natural e adquirida (humoral e celular) pois uma
falha em um sistema terá como conseqüência
uma influência negativa sobre o outro.
IMUNOPROFILAXIA PARA O HVB 1
Para imunoprofilaxia do HVB 1 foram desenvolvidos
diferentes tipos de imunógenos ou vacinas. Como
não existe uma vacina ideal, que proteja 100%
dos animais vacinados sem efeitos colaterais,
os diferentes metódos de produção de vacinas contra
HVB-1 apresentam vantagens e desvantagens com
relação a tipo e duração de imunidade, biossegurança,
virulência residual, reações adversas, etc. O
prévio conhecimento de aspectos ligados à imunologia
viral e das infecções por Herpesvírus facilita
em muito a compreensão dos fatores positivos e
negativos inerentes a cada tipo ou metodologia
de produção de vacinas.
1. VACINAS INATIVAS OU COM VÍRUS MORTO
O vírus ou antígeno vacinal é inativado, mas freqüentemente
por processos químicos, não havendo a replicação
da amostra vírica vacinal no organismo do animal
imunizado. Como não há formação de uma progênie
vírica vacinal, para indução de imunidade, a massa
viral - ou seja a quantidade de vírus por dose
de vacina - deve ser muito superior às vacinas
atenuadas. Para que seja obtida uma boa imunidade,
as vacinas com vírus inativados necessitam ser
associadas a drogas potenciadoras da resposta
imunológica (adjuvantes).
Vantagens:
É segura para aplicação em qualquer fase
da criação.
Não há risco de reversão de virulência
ou recombinação genética.
Dependendo do adjuvante utilizado pode
elicitar uma resposta humoral com bons títulos
de anticorpos.
Desvantagens:
Não ativa, ou ativa muito pobremente a
imunidade celular citotóxica, de extrema importância
nos processos de recuperação da infecção e transmissão
do vírus a animais suscetíveis.
Necessidade obrigatória de duas doses de
vacina na primovacinação.
Longo período negativo, ou seja, a imunidade
humoral sólida somente será estabelecida em média
de 35 a 45 dias após a dose inicial.
Menor período de imunidade, que, na dependência
do adjuvante utilizado, pode variar de 6 a 12
meses.
Interferência com sorodiagnóstico. Não
diferenciação, por meio de provas sorológicas
de animais vacinados dos infectados.
Maior probabilidade de reações anafiláticas
locais ou sistêmicas considerando a presença de
várias substâncias ou produtos, como inativantes,
conservantes e adjuvantes, além de uma maior concentração
celular.
2. VACINAS ATENUADAS OU COM VÍRUS VIVO
Diferentemente da metodologia anterior, o vírus
vacinal, com virulência reduzida, tem a capacidade
de replicar-se no organismo do animal vacinado
simulando uma infecção de campo. Com isso as respostas
imunológicas tanto humoral quanto celular são
muito parecidas às de uma infecção natural, ou
seja, são superiores em termos quantitativos e
qualitativos em relação a antígenos inativados.
Exitem atualmente duas metodologias para produção
de vacinas atenuadas para HVB 1.
2.1 ATENUAÇÃO TRADICIONAL
Por este método de produção de vacinas o vírus
é atenuado, ou seja, tem o seu poder de patogenicidade
reduzido, e mesmo em algumas circunstâncias
até eliminado, por numerosas e sucessivas passagens
do vírus em cultivo celular. Com isso o vírus
vacinal mantém a antigenicidade do vírus original,
com virulência reduzida quando inoculado em seu
hospedeiro definitivo.
No Brasil este tipo de vacina não se encontra
disponível no mercado, uma vez que sua comercialização
no País ainda não foi autorizada pelo Ministério
da Agricultura e do Abastecimento.
Vantagens:
Induz sólidas imunidades humoral e celular
citotóxica.
Necessidade de apenas uma dose imunizante.
Período negativo curto, ou seja, a imunidade
é alcançada dias após a primeira dose.
Longo período de imunidade, podendo atingir
até 24 meses.
Menor probabilidade de reações, locais
e sistêmicas, indesejáveis ou, uma vez que não
são usados adjuvantes, inativantes conservantes,
e a concentração celular é menor.
Desvantagens:
As vacinas são atenuadas para bezerros
e animais adultos saudáveis, porém não para o
embrião e o feto. Com isso animais gestantes não
devem ser vacinados ou mesmo entrar em contato
com outros animais recém-vacinados, uma vez que
estes excretaram o vírus vacinal no meio ambiente.
Necessita de maiores cuidados na manipulação
e aplicação para evitar inativação do vírus vacinal
e/ou subdosagens que serão responsáveis por não-indução
de imunidade.
Interferência no sorodiagnóstico. Não diferenciação,
por provas sorológicas de animais vacinados dos
infectados.
Apesar de extremamente remota, existe a
probabilidade de reversão de virulência e/ou recombinação
genética.
2.2 VACINAS COM VÍRUS VIVO MUTANTES TS (TERMOSSENSÍVEL)
DE USO INTRAMUSCULAR.
Este tipo de amostra de vírus vacinal, produzida
por indução química, somente tem a capacidade
de replicação em temperaturas inferiores à temperatura
corporal. Os maiores títulos de vírus (ou rendimento
viral) são obtidos a temperaturas variando de
30ºC a 36ºC, sendo que a 39ºC não
há mais produção de vírus (ZYGRAICH et al.,1974A).
Os mutantes termossensíveis, metodologia
também utilizada em vacinas de uso em humanos,
foram inicialmente desenvolvidos para aplicação
intranasal, em que a temperatura do trato respiratório
superior permite a replicação viral. Entretanto,
quando o vírus vacinal alcança o trato respiratório
inferior e mesmos outros órgãos inclusive o útero
em que a temperatura é superior à de replicação
viral ,o vírus vacinal nãoé capaz de replicar-se.
No Brasil eAmérica do Norte (Estados Unidos e
Canadá) por questões de manejo vacinal este tipo
de vacina é disponível para uso intramuscular.
Nesta situação devido à interferência da temperatura
a partícula viral vacinal apresenta somente um
a dois ciclos de replicação no local da inoculação,
comportando-se posteriormente como uma partícula
inativada por restrição de temperatura. Por ter
um breve período replicativo, proteínas víricas
são expressas juntamente aos antígenos de classe
I do MHC da célula hospedeira e são apresentadas
para Linfócitos CD8+ (T citotóxicos) ativando
resposta imune celular citotóxica. Adicionalmente
a respota imune humoral também é ativada culminado
com a produção de anticorpos.
Vantagens:
A vacina é segura para aplicação em animais
jovens e mesmo em fêmas prenhes em qualquer estágio
gestacional (amostra comprovadamente não-abortogênica).
Não são observados os efeitos adversos, respiratórios
e/ou reprodutivos, possíveis de ocorrer nas vacinas
atenuadas por metodologia tradicional.
Ativação tanto da imunidade humoral quanto
celular citotóxica.
Título de anticorpos detectáveis por um
período de até 12 meses pós-vacinação, superior
ao das vacinas que utilizam vírus morto e adjuvantes
tradicionais.
Estabilidade genética tanto in vitro
quanto in vivo.
Menor índice de reações adversas.
Desvantagens:
Devido ao uso intramuscular, há necessidade
de duas doses iniciais para alcançar um bom nível
de imunidade nos animais vacinados.
Interferência com sorodiagnósticos. Não-diferenciação,
por meio de provas sorológicas, de animais vacinados
dos infectados.
Os sintomas clínicos e conseqüências indesejáveis
determinados por vacinas com vírus vivo, produzidas
por metodologia tradicional, contra herpesvírus
bovino, são muito bem conhecidos desde o seu desenvolvimento
no final da década de 50 e início de 60. Por este
motivo a vacina também com vírus vivo mutante
termossensível sempre foi alvo de dúvidas
com relação às possíveis conseqüências de
sua aplicação em bovinos de diferentes faixas
etárias e condições fisiológicas. Ao longo dos
anos, em várias partes do mundo foram realizados
teste de campo e de laborátorio com o objetivo
principal de averiguar a inocuidade e antigenicidade
dos mutantes termossensíveis. Na seqüência
serão citados alguns dados, extraídos da literatura
internacional, de testes realizados com a vacina
mutante termossensível para HVB 1.
A) Segurança e eficácia em bezerros: KUCERA
& BECKENHAUER, 1978; ZYGRAICH et al.,1974B. Não
foram observados sintomas respiratórios compatíveis
com infecções dos tratos respiratórios superior
ou mesmo inferior. Animais vacinados apresentam
soroconversão e resistem ao desafio com vírus
selvagem.
B) Segurança em vacas gestantes: (teste
da natureza não-abortogênica do mutante termossensível).
FERGUSSON et al.,1997; CRAVENS et al.,1996; TALENS
et al., 1989; KUCERA & BECKENHAUER, 1978 ; LOMBA
et al., 1976. Em todas os experimentos os animais
vacinados com a mostra mutante termossensível
em vários estágios gestacionais não apresentaram
nenhum tipo de distúrbio reprodutivo, tais como:
mortalidade embrionária precoce e/ou tardia, aborto,
mumificação, natimorto, mortalidade neonatal ou
nascimento de bezerros fracos.
C) Estabilidade do mutante termossensível:
ZYGRAICHA et al.,1974. O caráter do mutante termossensível
foi determinado in vivo e ïn vitro.
No estudo in vitro foi demonstrado que
a cepa permaneceu estável após 9 passagens em
culturas primárias de tecidos. No estudo in
vivo a estabilidade foi observada após a inoculação
em novilhos e os resultados mostraram que não
houve reversão.
D) Ausência de lesões ovarianas: SPIRE
et al.,1995.
A vacina com mutante termossensível foi
incapaz de determinar lesões e hemorragias em
ovários e estruturas ovarianas como ocorre com
o vírus selvagem ou mesmo com vacinas com vírus
vivo produzidas por metodologia tradicional.
E) Não-interferência na produção de leite:
FERGUSON et al., 1997. Os índices de produção
de leite (kg/vaca/dia), em qualquer período da
lactação não foram alterados após a vacinação
com a vacina mutante termossensível.
F) Eficácia contra aborto por I.B.R: CRAVEBS
et al.,1996. A administração intramuscular do
mutante termossensível em novilhas soronegativas
antes da inseminação artificial e desafiadas com
amostras virulentas de BHV-1 pela via intravenosa
aos 6 meses de gestação resultou em apenas 1 aborto,
enquanto 10 de 10 novilhas controles abortaram
ou deram à luz bezerros natimortos.
G) Indução da resposta celular: ELLIS et
al,1994. A vacinação de bezerros soronegativos
com o mutante termossensível produziu resposta
imune celular específica significativamente superior,
quando comparado com o grupo não-vacinado, conforme
mensurado pela blastogênese de linfócitos.
3. VACINAS COM MARCADORES GENÉTICOS
Até o momento (fevereiro/1999) este tipo de vacina
ainda não está disponível no Brasil. Esta metodologia
de produção de imunógenos, por meio quase sempre
da deleção de uma glicoproteína da partícula viral,
possibilita que, por métodos sorológicos, diferenciem-se
os animais sororreagentes devido a uma vacinação
daqueles infectados por infecção de campo. Este
tipo de vacina está sendo regularmente utilizado
em alguns países europeus, onde a prevalência
da infecção por HVB-1 é baixa, em programas de
erradicação da doença, pela realização de teste
e eliminação dos animais infectados. As vacinas
com marcadores genéticos podem ser tanto com vírus
vivo quanto com vírus morto. As vantagens e desvantagens
inerentes ao tipo de imunógeno vivo ou morto são
as mesmas já relacionadas anteriormente.
Vantagem adicional das vacinas com marcadores
genéticos:
São as únicas vacinas que não exercem interferência
com sorodiagnóstico.
Desvantagens adicionais das vacinas com marcadores
genéticos:
Alto custo de produção e conseqüentemente
ao produtor.
Os testes sorológicos para diferenciação
dos animais infectados dos vacinados, na dependência
da glicoproteína deletada, deverão ser específicos
para cada tipo de vacina.
CONCLUSÃO:
Trabalhos recentes demonstram que a Rinotraqueíte
Infecciosa Bovina encontra-se amplamente disseminada
no rebanho brasileiro, inviabilizando, pelo menos
a curto prazo, um programa nacional de erradicação.
A vacinação contra a Rinotraquíte Infecciosa Bovina
é no momento a melhor opção para reverter os prejuízos
causados por esta doença.
As vacinas com mutantes termossensíveis
representam uma boa opção para o controle da Rinotraqueíte
Infecciosa Bovina, pois induzem uma boa imunidade
celular e humoral e são comprovadamente seguras
para todas as categorias de animais, incluindo
vacas prenhes.
BIBLIOGRAFIA CITADA:
1. ACKERMANN, M.et al. American Journal Veterinaty
Research, 43: 36-40, 1982.
2. ACKERMANN, M.et al. Veterinary Microbiology.23:
361-363,1990.
3. CANANT, J.C. Modern Veterinary Practice, 65:
929-931, 1984
4. CANANT, J.C. Modern Veterinary Practice, 66:
47-50, 1985
5. CRAVENS, R.L. et al. J. American Veterinary
Medical Assoc., 201: 2031-2034, 1996
6. ELLIS at al. Agri-Practice, 15: 11-15, 1994
7. FENNER, F. Veterinary Virology. Academic Press
(Ed): 1987, p. 347-367. Diseases caused by Alphaherpesviruses.
8. FERGUSSON, J.D. et al. J. American Veterinary
Medical Assoc., 210: 1779-1783, 1997.
9. FONDEVILA, N.A. et al. Revista Investigaciones
Agropecuaria. INTA, 16:285-289, 1981
10. GALARZA, J.M. &PERIOLO, O.H. Gaceta Veterinaria,
45: 1296-1300, 1983.
11. GALVÃO, C. et al. Instituto Biológico da Bahia,
1: 15-25, 1963.
12. GRIFFITH, I.B. et al. Informe ICA-ANALC. Doc.002-2.1924-27,
1982.
13. KAHRS, R.F. Journal American Veterinary Medicice
Association, 171:1055-1064,1977.
14. KASTELIC, J.P. Veterinary Medicine 79:584-589,
1994
15. KIRKBRIDE, C.A. Veterinary Medicine 80:70-79,
1985
16. KUCERA, C.J.; BECKEHAUER, W.H. American Journal
Veterinary Research, 39:318-321,1978
17. LOMBA et al., In: International Congress;
Diseases on cattle, Paris, p. 395-400, 1976
18. LOVATO, L.T. et al., Ciência Rural, 25: 425-430,
1995
19. LUDWIG, H. The herpesviruses: New York: Roizman
B.(Ed), 1983, v.2, p.135-214, Bovine Herpesvirus
20. MILLER, J.M.&VAN DER MARTIN, M.J. American
Journal Veterinary Recearch, 47:223-228, 1986
21. MILLER, J.M. Veterinary Medicine, 86: 95-98,
1981
22. MUELLER, S.B.K. et al. Instituto Biológico
de São Paulo, 47: 55-59,1981
23. PAULI, B. et al. Medicine Microbiology Immnology,
169: 129, 1981
24. RAVAZZOLO, A.P. et al. Arquivos Faculdade
Veterinária UFRGS, 17:89-95,1989.
25. RICHTZENHAIN, L.J.et al. In:XX World Buiatrics
Congress, Sydney, Australia, 6-10 july/1998. Proceedings,
p.1156 (paper 142), 1998.
26. RIEDEMANN, S. et al Archives Medicine Veterinaria,
28: 121-124, 1996.
27. ROCK, D.L. Seminars in Virology, 4: 157-165,
1993.
28. ROEHE, P.M. et al Pesquisa Veterinária Brasileira,
17: 41-44, 1997
29. SPIRE, M.F. et al Agri Pratice Medicine,16:33-38,1995.
30. STRAUB, O.C. Virus Infections of Ruminants.
Dinter & Morum (Editor), 1990. V.3. Infectious
Bovine Rhinotracheitis Virus, p.71-99
31. STRAUB, O.C. Compedium in Immunoly, Microbiology
and Infectious Diseases, 14: 175-186, 1991.
32. TALENS, L.T. et al. J. American Veterinary
Medical Assoc.,194: 1273-1280,1989
33. VAN OIRSCHOT, J.T. et al Veterinary Microbiology,
53: 43-54, 1996
34. VIDOR, T. et al Ciência Rural,25: 421-424,
1995
35. WITTMANN, G. Herpesvirus diseases of cattle,
horses and pigs. London: Academic Press, 1989,
345p.
36. WIZIGMANN, G. et al. Boletim Instituto de
Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor, 1: 52-58,
1972
37. WYLER, R. et al. Herpesvirus Diseases of cattle,
horses and pigs. 1990, London: Academic Press,
1990, 345p.,p.01-07
38. ZYGRAICH, N. et al. Research Veterinary Science,
16: 328-335, 1974.
39. ZYGRAICH, N. et al. Developement Biological
Standard, 26:8-14, 1974.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
1. BABIUK, L.A. et al. Immunology of bovine herpesvirus
1 infection. Veterinary Microbiology, 53: 31-42,
1996.
2. DONKERSGOED, J.V. et al., Comparative serological
responses in calves to eight commercial vaccines
against infectious bovine rhinotracheitis, parainfluenza-3,
bovine respiratory syncytial, and bovine viral
diarrhea viruses. Canadian Veterinary Journal,
32: 727-733, 1991.
3. ELLIS, J. A & CORTESE , V. Stimulation of Bovine
Herpesvirus-1 specific T Lynphocyte and antibody
responses in cattle following immunization with
a polyvalente vaccine.Agro-Practice, 15: 1-15,
1994.
4. FULTON, R.W. et al. Antibody responses by cattle
after vaccination with commercial viral vaccines
containing bovine herpesvirus-1, bovine viral
diarrhea, parainfluenza-3 virus, and bovine respiratory
syncytal virus immunogens and subsequent revaccination
at day 140.Vaccine, 13: 725-733, 1995.
5. HJERPE, C.A. Bovine herd vaccination programs.
The Veterinary Clinics of North America (Food
Animal Practice) march/1.990
6. LEROY, E, H . et al Immunology, 2nd edition
\, The Benjamin/Cummings, Publishing Company,
Inc, California, 1984
7. OUTTERIDGE. Veterinary Immunology, 1 st edition,
Academic Press, London, 1985.
8. PLAYFAIR, J.H.L. Immunology at a Glance. 4th,
edition, Blackwell Scientific Publications London,
1987
9. ROITT, I. Essential Immunology,18th, edition,
Blackwell Scientific Publications, London, 1994
10. ROITT, I.et at Immunology, 1st edition, Gowerr
Medical Publishing, London, 1987
11. TIZARD,I. Veterinary Immunology - Na Introduction.
4th edition, W.B. Saunders Company, Philadelphia,
USA, 1992
12. VAN OIRSCHOT, J.T. Diva vaccines to control
bovine herpesvirus 1. In: Simpósio Internacional
sobre herpesvírus bovino (tipo1 e 5) e Vírus da
Diarréia Viral Bovina (BVDV0. Santa Maria, RS,
Brasil, 22 a 24 de Abril de 1998, p.139-148.
SOBRE O AUTOR:
Prof. Dr. Amauri Alcindo Alfieri
Médico Veterinário formado pela
Universidade de Londrina (PR)
Mestre em Microbiologia pela Universidade
Federal de Minas Gerais (MG)
Doutor em Biologia Celular e Molecular
pelo Instituto Oswaldo Cruz (RJ)
Trabalho no Exterior: Centers For Diseases
Control and Prevention (CDC), Atlanta, Geórgia
(EUA)
Professor Adjunto da Universidade Estadual
de Londrina (UEL) nas Disciplinas: Microbiologia
(Virologia) e Doenças Infecciosas nos Cursos de
Graduação e Pós-Graduação em Medicina Veterinária
da Universidade Federal Estadual de Londrina
Coordenador das Comissões de Pesquisa e
Pós-Graduação do Centro de Ciências Agrárias da
UEL
Coordenador do Programa de Mestrado em
Sanidade Animal (UEL)
|