| A
grande discussão em torno do emprego do
diagnóstico laboratorial de mastites bovinas
na rotina de granjas leiteiras versa basicamente
sobre dois pontos:
O "alto" custo do exame.
A urgência na escolha da consulta
terapêutica.
O produtor não pode esperar 48 h após o
envio da amostra ao laboratório (tempo médio
para obtenção de resultados de isolamento
do agente e antibiograma) para tomar uma
decisão. Neste período ele perde 4 ordenhas,
ou seja, 12 litros de leite, em média, se
considerarmos apenas um teto afetado de
uma vaca de boa produção (241/dia) e, dependendo
da evolução do quadro clínico, podendo comprometer
irreversivelmente a saúde da glândula mamária.
Por outro lado, o isolamento bacteriano
de vacas "mastiteiras" e respectivo antibiograma
são ferramentas imprescindíveis no dia-a-dia
da granja de leite. Neste boletim técnico,
faremos uma abordagem mais ampla sobre o
tema e mostraremos que não é preciso necessariamente
esperar o resultado de isolamento e antibiograma
para escolha do antibiótico intramamário.
Além de ser úteis para confirmar o diagnóstico
clínico, os resultados laboratoriais sugerem
possíveis correções no manejo, que podem
reduzir sensivelmente as recidivas.
A ESCOLHA DO ANTIBIÓTICO INTRAMAMÁRIO
Uma vez detectada a mastite, alguns
fatores devem ser levados em consideração
para a escolha do antibiótico intramamário
a ser adotado:
Espectro de ação;
Fácil adaptação ao manejo (que não
altere a rotina da propriedade);
Período de retirada (em quantas horas
após a última aplicação se pode comercializar
o leite);
Histórico de sucesso anterior no
rebanho;
Sucesso reconhecido na região;
Resultados de testes de sensibilidade;
Natureza da infecção (bactérias G(+),
G(-), fungos e algas);
Custo-benefício favorável.
Um produto que possua sucesso clínico anterior
na região ou no próprio rebanho seria, de
forma prática, o melhor argumento para a
escolha rápida do tratamento, mesmo antes
se conhecer os resultados laboratoriais,
ganhando-se 48 h preciosas na luta contra
a mastite e pelo retorno à produção.
COMO APLICAR OS RESULTADOS DO ANTIBIOGRAMA
AO MANEJO
Os resultados dos testes de sensibilidade
possuem grande importância e seriam aplicados
na triagem dos produtos, que poderiam, a
partir de então, ser usados ou não na propriedade,
daí a necessidade da opção por um antibiótico,
de alto poder bactericida, que atue no maior
número possível de agentes causadores de
mastites, sejam elas clínicas ou ambientais.
A aferição de sensibilidade é fundamental
para a certeza de se estar utilizando o
produto certo e que melhor se aplica no
combate aos agentes de mastite naquela propriedade.
Como exemplo seguem alguns perfis de sensibilidade
realizados por laboratórios de Cooperativas
e Fundações de Pesquisas independentes no
Brasil.
Cooperativa
Alfa*
Chapecó/SC - 1995 |
FEPAGRO
- Fund. Est. Pesq. Agrop.
Eldorado do Sul/RS - 1995 |
Coopersul
- Coop. Regional Agroleitedo Sul Ltda.
Braço do Norte/SC - 1996 |
 |
*além
das cepas citadas, isolou-se Klebsiella
sp, Enterobacter sp, Micrococcus sp,
e Bacillus sp
Cefoperazone sódico - Patozone®
- Produto de Laboratório Pfizer
Ltda. |
Os resultados se baseiam principalmente
no isolamento de cepas de Staphilococcus
aureus, Streptococcus sp e E.
coli.
Estes resultados confirmam que a melhor
opção para o tratamento intramamário é o
cefoperazone sódico.
As mastites bovinas são causadas por uma
grande variedade de bactérias, e a identificação
do agente etiológico é, pois, uma arma fundamental
no seu combate, notadamente se soubermos
como interpretar e aplicar, na prática,
o que o exame laboratorial revelou.
COMO APLICAR OS DADOS DE ISOLAMENTO BACTERIANO
AO MANEJO
As principais bactérias causadoras de mastites
possuem comportamentos distintos, como habitat,
forma de colonização do úbere, etc. Suas
presenças no leite ou no interior do úbere
como conseqüentes detecções laboratoriais
indicam que falhas no manejo podem estar
ocorrendo, e com algumas medidas práticas
as recidivas podem ser evitadas.
A) Isolamento de bactérias Gram (+) Mastites
Clínicas Subclínicas ou Mastites Contagiosas
Staphilococcus aureus
Característica:
Colonizam o canal do teto, situando-se portanto
em posição estratégica para penetração no
úbere. Não colonizam a pele sã. Uma vez
penetrando no úbere, podem burlar as defesas
celulares, sendo fagocitados pêlos neutrófilos
e permanecendo viáveis no interior destes,
podendo destruí-los e iniciar novas infecções.
Possuem grande poder invasor dos tecidos
com capacidade de encistamento, formando
focos encapsulados profundos e de difícil
acesso a antibióticos que não possuam boa
dispersão, o que favorece o desenvolvimento
de processos crônicos e subclínicos. Podem
ser isolados no período seco e pós-parto.
Seu isolamento pode significar falhas de
manejo que provoquem lesões no esfíncter
do teto, tais como:
Rachaduras e ressecamentos - causadas
por uso de desinfetantes cáusticos ou mal
diluídos.
Prolapso - causados por ordenhadeiras
mal reguladas com alto nível de vácuo.
Ferimentos - causados por fatores
físicos tais como: arames, pedras na cama,
pisoteio, etc.
Como corrigir:
A principal conclusão que podemos tirar
do isolamento de S. aureus em função
do manejo é a necessidade de tratamento
dessas vacas no período seco, mesmo que
a cura clínica no período de lactação tenha
sido atingida, devido a sua caraterística
de encistamento. Este tratamento é imprescindível
e deve ser feito com antibiótico intramamário
de longa ação, pelo menos nas três primeiras
semanas de secagem. Ex.: Orbenin Extra
Dry Cow (Cloxacilina 600mg - 7 semanas
de ação no úbere). A antibioticoterapia
intramamária com Orbenin Extra Dry Cow
no período seco das vacas, demonstra as
melhores taxas de cura com menor índice
de recidivas (Costa, E. O.; et al, 1996).
Streptococcus spp.
Podem ser isolados no período seco e no
pós-parto.
Streptococcus agalactiae
Só podem sobreviver no leite. Não sobrevivem
mais de 3 semanas fora do úbere ou alesões
do teto. Podem ser isoladas das mãos do
ordenhador em até 10 dias após a ordenha.
Streptococcus uberis e Streptococcus
dysgalactiae
São isolados com maior freqüência em lesões
da pele do úbere, podendo também ocorrer
em menor incidência na pele sã. Podem sobreviver
fora da glândula mamária (ordenhadeiras
mal higienizadas, pêlos das vacas etc.),
S. uberis é isolado com freqüência
na fase seca.
Seu isolamento pode significar:
Por colonizarem basicamente pele e lesões
dos tetos, seu isolamentos indicam principalmente
falhas no processo de ordenha, quer seja
pelo processo manual ou mecânico.
GPR (Gradiente de Pressão Reversa)
A secagem incorreta dos tetos antes da ordenha
ou baixo nível de vácuo do equipamento de
ordenha, pode predispor ao deslizamento
das teteiras com abrupta entrada de ar no
sistema, o que determina a inversão do fluxo
de leite para o interior do úbere (GPR),
podendo carrear bactérias que colonizam
a porção externa do úbere, além de causar
lesões no esfíncter da glândula. Este fenômeno
pode ocorrer também com a retirada abrupta
das teteiras antes do fechamento do registro
de vácuo do copo coletor.
Assim pode haver transmissão de um teto
infectado para outro sadio na mesma vaca,
ou de uma vaca doente para uma vaca sadia.
Como corrigir:
A incidência deste tipo de mastite pode
ser diminuída com medidas de rotina, que
compreendem:
- Fazer imersão dos tetos em solução desinfetante
antes da ordenha;
- Secar completamente os tetos com papel
toalha descartável, antes da colocação das
teteiras;
- Fiscalizar e ajustar as teteiras sempre
que necessário durante toda a ordenha;
- Retirar as teteiras ao final do fluxo
de leite, fechando previamente o registro
de vácuo do copo coletor;
- Fazer imersão completa dos tetos em solução
desinfetante (iodophor - Biocid) após a
ordenha;
- Fazer checagem do equipamento de ordenha
1 a 2 vezes por ano, substituindo os componentes
de borracha como teteiras, mangueira de
leite, etc;
- Tratamento preventivo no período seco
com Orbenin Extra Dry Cow (Costa, E.O.;
et all, 1996).
B) Isolamento de bactérias Gram (-) Mastites
Ambientais
Escherichia aoli, Klebsiella sp, Enterobacter
sp, Pseudomonas sp
As mastites ambientais principalmente causadas
por E. coli apresentam normalmente
sintomatologia superaguda, com evolução
rápida e na maioria das vezes prognóstico
sombrio, devido principalmente à liberação
de toxinas a partir de restos celulares
provenientes das bactérias mortas. Requerem
intervenção imediata e associação de antibioticoterapia
sistêmica e intramamária. São isolados com
freqüência na fase pós-parto.
Seu isolamento pode significar:
Estas bactérias são basicamente intestinais
e ambientais, sua presença no úbere ou leite
indicam falhas na higienização, sendo, portanto,
exclusivamente derivadas da contaminação
ambiental.
Como corrigir:
Medidas básicas de higiene no ambiente (notadamente
na fase do parto e pós-parto) e na ordenha,
tais como lavagem freqüente do piso da sala,
remoção de fezes, controle de moscas, higiene
pessoal de operadores da ordenha, lavagem
e desinfecção adequada dos equipamentos
de ordenha, etc.
C) Predominância de agentes etiológicos
de mastite nas diferentes fases de lactação:
Pós-parto e primeiro terço da lactação
- 90% Staphilococcus sp e Streptococcus
sp - 10% E. coli;
Último terço de lactação - 90% Staphilococcua
sp - 10% Streptococcus sp
Período seco - 100% Staphilococcus
sp, Streptococcus sp, Corynebacterium
sp
Mastites subclínicas - 100% Staphilococcus
sp e Streptococcus sp
CONCLUSÃO
Este é apenas um capítulo da grande discussão
em torno do controle das mastites bovinas.
As etiologias podem ser as mais variadas
envolvendo fatores nutricionais, anatômicos,
genéticos, etc. Mas, indiscutivelmente,
o fator predisponente principal está relacionado
às deficiências do manejo, e mais
intimamente ligado ao sistema de ordenha
e a quem o opera. Diante deste quadro, a
realização periódica de exames laboratoriais
do leite poderão fornecer dados valiosos,
e, se bem aplicados, podem, com medidas
simples de correção de manejo, evitar as
recidivas. Aliado a isso, os resultados
de antibiograma, mesmo sendo conhecidos
quando o tratamento já realizado, fornecem
todos os subsídios para a decisão sobre
que produto continuar usando ou que deva
ser descartado na propriedade. O uso criterioso
de Pathozone, antibiótico intramamário de
lato poder bactericida, com excepcional
performance em testes de sensibilidade bacteriana
e alta eficácia em mastites clínicas e ambientais,
associado a prevenção de novas infecções
durante o período seco com aplicação de
Orbenin Extra Dry Cow no início da secagem
das vacas, mais as correções de manejo que
o isolamento bacteriano venham a sugerir,
podem reduzir sensivelmente os prejuízos
causados pelas constantes recidivas de mastites
em vacas de boa produção.
Na tabela abaixo, segue um resumo prático
das medidas a ser adotadas em função das
bactérias isoladas.
| Como
aplicar resultados laboratoriais ao
manejo |
| Agente
isolado |
Característica
de colonização. |
Tratamento
clínico imediato |
Medidas
básicas de higiene |
Revisão
do equipamento de ordenha |
Tratamento
no
período seco* |
| S.
aureus |
Colonizam
o canal do teto, estrategicamente posicionado
para entrar no úbere. |
Sim. |
Sim. |
Sim. |
Sim. |
| Streptococcus
uberis/Streptococcus dysgalactiae |
Colonizam
a pele externa do úbere com ou sem lesão. |
Sim. |
Sim. |
Sim. |
Sim. |
| Streptococcus
agalactiae |
Sobrevive
no leite e em lesões no úbere. Permanece
viáveis no máximo 3 semanas fora desse
habitat. |
Sim. |
Sim,
podem ser isolados das mãos do ordenhador
em até 10 dias após a última ordenha. |
Sim. |
Sim. |
| E.
coli
Enterobacter
sp |
Ambiente. |
Sim,
intramamário e sistêmico. |
Sim
principalmente no |
- |
- |
Klebsiella
sp
Pseudomonas sp |
|
|
ambiente |
|
|
| *Independentemente
da obtenção de cura clínica, é imprescindível
a aplicação de Orbenin Extra Dry Cow
(age por 7 semanas no úbere) no início
do período seco. |
Referências
Costa, E.O.; Ribeiro, A.R.; Watanabe, E.T.;
Sá, R.; Silva, J.A. & Garino, Jr.F. Evaluations
of dry cow treatment on bovine mastitis:
cure rate and new infections rate. Poster
Presententions of World Buiatrics Congress,
XIX, Edinburgh, Scotland, 1996, p. 193-95.
Fonseca, L.F.L. Princípios básicos sobre
funcionamento, dimensionamento, manutenção
e avaliação dos sistemas de ordenha. Anais
do 2º Encontro de Pesquisadores em Mastites
Bovinas do Estado de São Paulo, 1996, p.11-27.
Figueredo, J.B. Mamite bovina: visão panorâmica
de uma doença complexa. Anais do Congresso
Brasileiro de Reprodução Animal, XI, 1995,
p.176-94.
Lisboa, C.S.; Pianta, C. Redução da mastite
através do tratamento duplo no período seco.
Anais do Congresso Panamericano de Ciências
Veterinárias, XIV, Acapulco, México, 1994,
p.32. |