AT Nº 33 - DIAGNÓSTICO LABORATORIAL EM MASTITES BOVINAS: SUA REAL IMPORTÂNCIA E APLICAÇÃO PRÁTICA
 
Dalmo Fernandes
Div. Agropecuário Pfizer Brasil
Gerente Técnico Produtos Antibacterianos

INTRODUÇÃO

A grande discussão em torno do emprego do diagnóstico laboratorial de mastites bovinas na rotina de granjas leiteiras versa basicamente sobre dois pontos:

• O "alto" custo do exame.
• A urgência na escolha da consulta terapêutica.

O produtor não pode esperar 48 h após o envio da amostra ao laboratório (tempo médio para obtenção de resultados de isolamento do agente e antibiograma) para tomar uma decisão. Neste período ele perde 4 ordenhas, ou seja, 12 litros de leite, em média, se considerarmos apenas um teto afetado de uma vaca de boa produção (241/dia) e, dependendo da evolução do quadro clínico, podendo comprometer irreversivelmente a saúde da glândula mamária. Por outro lado, o isolamento bacteriano de vacas "mastiteiras" e respectivo antibiograma são ferramentas imprescindíveis no dia-a-dia da granja de leite. Neste boletim técnico, faremos uma abordagem mais ampla sobre o tema e mostraremos que não é preciso necessariamente esperar o resultado de isolamento e antibiograma para escolha do antibiótico intramamário. Além de ser úteis para confirmar o diagnóstico clínico, os resultados laboratoriais sugerem possíveis correções no manejo, que podem reduzir sensivelmente as recidivas.


A ESCOLHA DO ANTIBIÓTICO INTRAMAMÁRIO
Uma vez detectada a mastite, alguns fatores devem ser levados em consideração para a escolha do antibiótico intramamário a ser adotado:

• Espectro de ação;
• Fácil adaptação ao manejo (que não altere a rotina da propriedade);
• Período de retirada (em quantas horas após a última aplicação se pode comercializar o leite);
• Histórico de sucesso anterior no rebanho;
• Sucesso reconhecido na região;
• Resultados de testes de sensibilidade;
• Natureza da infecção (bactérias G(+), G(-), fungos e algas);
• Custo-benefício favorável.

Um produto que possua sucesso clínico anterior na região ou no próprio rebanho seria, de forma prática, o melhor argumento para a escolha rápida do tratamento, mesmo antes se conhecer os resultados laboratoriais, ganhando-se 48 h preciosas na luta contra a mastite e pelo retorno à produção.


COMO APLICAR OS RESULTADOS DO ANTIBIOGRAMA AO MANEJO
Os resultados dos testes de sensibilidade possuem grande importância e seriam aplicados na triagem dos produtos, que poderiam, a partir de então, ser usados ou não na propriedade, daí a necessidade da opção por um antibiótico, de alto poder bactericida, que atue no maior número possível de agentes causadores de mastites, sejam elas clínicas ou ambientais. A aferição de sensibilidade é fundamental para a certeza de se estar utilizando o produto certo e que melhor se aplica no combate aos agentes de mastite naquela propriedade.

Como exemplo seguem alguns perfis de sensibilidade realizados por laboratórios de Cooperativas e Fundações de Pesquisas independentes no Brasil.

Cooperativa Alfa*
Chapecó/SC - 1995
FEPAGRO - Fund. Est. Pesq. Agrop.
Eldorado do Sul/RS - 1995
Coopersul - Coop. Regional Agroleitedo Sul Ltda. Braço do Norte/SC - 1996
*além das cepas citadas, isolou-se Klebsiella sp, Enterobacter sp, Micrococcus sp, e Bacillus sp
Cefoperazone sódico - Patozone® - Produto de Laboratório Pfizer Ltda.


Os resultados se baseiam principalmente no isolamento de cepas de Staphilococcus aureus, Streptococcus sp e E. coli.

Estes resultados confirmam que a melhor opção para o tratamento intramamário é o cefoperazone sódico.

As mastites bovinas são causadas por uma grande variedade de bactérias, e a identificação do agente etiológico é, pois, uma arma fundamental no seu combate, notadamente se soubermos como interpretar e aplicar, na prática, o que o exame laboratorial revelou.


COMO APLICAR OS DADOS DE ISOLAMENTO BACTERIANO AO MANEJO
As principais bactérias causadoras de mastites possuem comportamentos distintos, como habitat, forma de colonização do úbere, etc. Suas presenças no leite ou no interior do úbere como conseqüentes detecções laboratoriais indicam que falhas no manejo podem estar ocorrendo, e com algumas medidas práticas as recidivas podem ser evitadas.

A) Isolamento de bactérias Gram (+) Mastites Clínicas Subclínicas ou Mastites Contagiosas

Staphilococcus aureus

Característica:
Colonizam o canal do teto, situando-se portanto em posição estratégica para penetração no úbere. Não colonizam a pele sã. Uma vez penetrando no úbere, podem burlar as defesas celulares, sendo fagocitados pêlos neutrófilos e permanecendo viáveis no interior destes, podendo destruí-los e iniciar novas infecções. Possuem grande poder invasor dos tecidos com capacidade de encistamento, formando focos encapsulados profundos e de difícil acesso a antibióticos que não possuam boa dispersão, o que favorece o desenvolvimento de processos crônicos e subclínicos. Podem ser isolados no período seco e pós-parto.

Seu isolamento pode significar falhas de manejo que provoquem lesões no esfíncter do teto, tais como:
• Rachaduras e ressecamentos - causadas por uso de desinfetantes cáusticos ou mal diluídos.
• Prolapso - causados por ordenhadeiras mal reguladas com alto nível de vácuo.
• Ferimentos - causados por fatores físicos tais como: arames, pedras na cama, pisoteio, etc.

Como corrigir:

A principal conclusão que podemos tirar do isolamento de S. aureus em função do manejo é a necessidade de tratamento dessas vacas no período seco, mesmo que a cura clínica no período de lactação tenha sido atingida, devido a sua caraterística de encistamento. Este tratamento é imprescindível e deve ser feito com antibiótico intramamário de longa ação, pelo menos nas três primeiras semanas de secagem. Ex.: Orbenin Extra Dry Cow (Cloxacilina 600mg - 7 semanas de ação no úbere). A antibioticoterapia intramamária com Orbenin Extra Dry Cow no período seco das vacas, demonstra as melhores taxas de cura com menor índice de recidivas (Costa, E. O.; et al, 1996).

Streptococcus spp.

Podem ser isolados no período seco e no pós-parto.

Streptococcus agalactiae

Só podem sobreviver no leite. Não sobrevivem mais de 3 semanas fora do úbere ou alesões do teto. Podem ser isoladas das mãos do ordenhador em até 10 dias após a ordenha.

Streptococcus uberis e Streptococcus dysgalactiae

São isolados com maior freqüência em lesões da pele do úbere, podendo também ocorrer em menor incidência na pele sã. Podem sobreviver fora da glândula mamária (ordenhadeiras mal higienizadas, pêlos das vacas etc.), S. uberis é isolado com freqüência na fase seca.

Seu isolamento pode significar:

Por colonizarem basicamente pele e lesões dos tetos, seu isolamentos indicam principalmente falhas no processo de ordenha, quer seja pelo processo manual ou mecânico.

GPR (Gradiente de Pressão Reversa)

A secagem incorreta dos tetos antes da ordenha ou baixo nível de vácuo do equipamento de ordenha, pode predispor ao deslizamento das teteiras com abrupta entrada de ar no sistema, o que determina a inversão do fluxo de leite para o interior do úbere (GPR), podendo carrear bactérias que colonizam a porção externa do úbere, além de causar lesões no esfíncter da glândula. Este fenômeno pode ocorrer também com a retirada abrupta das teteiras antes do fechamento do registro de vácuo do copo coletor.
Assim pode haver transmissão de um teto infectado para outro sadio na mesma vaca, ou de uma vaca doente para uma vaca sadia.

Como corrigir:

A incidência deste tipo de mastite pode ser diminuída com medidas de rotina, que compreendem:
- Fazer imersão dos tetos em solução desinfetante antes da ordenha;
- Secar completamente os tetos com papel toalha descartável, antes da colocação das teteiras;
- Fiscalizar e ajustar as teteiras sempre que necessário durante toda a ordenha;
- Retirar as teteiras ao final do fluxo de leite, fechando previamente o registro de vácuo do copo coletor;
- Fazer imersão completa dos tetos em solução desinfetante (iodophor - Biocid) após a ordenha;
- Fazer checagem do equipamento de ordenha 1 a 2 vezes por ano, substituindo os componentes de borracha como teteiras, mangueira de leite, etc;
- Tratamento preventivo no período seco com Orbenin Extra Dry Cow (Costa, E.O.; et all, 1996).

B) Isolamento de bactérias Gram (-) Mastites Ambientais

Escherichia aoli, Klebsiella sp, Enterobacter sp, Pseudomonas sp

As mastites ambientais principalmente causadas por E. coli apresentam normalmente sintomatologia superaguda, com evolução rápida e na maioria das vezes prognóstico sombrio, devido principalmente à liberação de toxinas a partir de restos celulares provenientes das bactérias mortas. Requerem intervenção imediata e associação de antibioticoterapia sistêmica e intramamária. São isolados com freqüência na fase pós-parto.

Seu isolamento pode significar:

Estas bactérias são basicamente intestinais e ambientais, sua presença no úbere ou leite indicam falhas na higienização, sendo, portanto, exclusivamente derivadas da contaminação ambiental.

Como corrigir:

Medidas básicas de higiene no ambiente (notadamente na fase do parto e pós-parto) e na ordenha, tais como lavagem freqüente do piso da sala, remoção de fezes, controle de moscas, higiene pessoal de operadores da ordenha, lavagem e desinfecção adequada dos equipamentos de ordenha, etc.

C) Predominância de agentes etiológicos de mastite nas diferentes fases de lactação:

• Pós-parto e primeiro terço da lactação - 90% Staphilococcus sp e Streptococcus sp - 10% E. coli;
• Último terço de lactação - 90% Staphilococcua sp - 10% Streptococcus sp
• Período seco - 100% Staphilococcus sp, Streptococcus sp, Corynebacterium sp
• Mastites subclínicas - 100% Staphilococcus sp e Streptococcus sp

CONCLUSÃO

Este é apenas um capítulo da grande discussão em torno do controle das mastites bovinas. As etiologias podem ser as mais variadas envolvendo fatores nutricionais, anatômicos, genéticos, etc. Mas, indiscutivelmente, o fator predisponente principal está relacionado às deficiências do manejo, e mais intimamente ligado ao sistema de ordenha e a quem o opera. Diante deste quadro, a realização periódica de exames laboratoriais do leite poderão fornecer dados valiosos, e, se bem aplicados, podem, com medidas simples de correção de manejo, evitar as recidivas. Aliado a isso, os resultados de antibiograma, mesmo sendo conhecidos quando o tratamento já realizado, fornecem todos os subsídios para a decisão sobre que produto continuar usando ou que deva ser descartado na propriedade. O uso criterioso de Pathozone, antibiótico intramamário de lato poder bactericida, com excepcional performance em testes de sensibilidade bacteriana e alta eficácia em mastites clínicas e ambientais, associado a prevenção de novas infecções durante o período seco com aplicação de Orbenin Extra Dry Cow no início da secagem das vacas, mais as correções de manejo que o isolamento bacteriano venham a sugerir, podem reduzir sensivelmente os prejuízos causados pelas constantes recidivas de mastites em vacas de boa produção.

Na tabela abaixo, segue um resumo prático das medidas a ser adotadas em função das bactérias isoladas.

Como aplicar resultados laboratoriais ao manejo
Agente isolado Característica de colonização. Tratamento clínico imediato Medidas básicas de higiene Revisão do equipamento de ordenha Tratamento no
período seco*
S. aureus Colonizam o canal do teto, estrategicamente posicionado para entrar no úbere. Sim. Sim. Sim. Sim.
Streptococcus uberis/Streptococcus dysgalactiae Colonizam a pele externa do úbere com ou sem lesão. Sim. Sim. Sim. Sim.
Streptococcus agalactiae Sobrevive no leite e em lesões no úbere. Permanece viáveis no máximo 3 semanas fora desse habitat. Sim. Sim, podem ser isolados das mãos do ordenhador em até 10 dias após a última ordenha. Sim. Sim.

E. coli
Enterobacter sp

Ambiente. Sim, intramamário e sistêmico. Sim principalmente no - -
Klebsiella sp
Pseudomonas sp
    ambiente    
*Independentemente da obtenção de cura clínica, é imprescindível a aplicação de Orbenin Extra Dry Cow (age por 7 semanas no úbere) no início do período seco.

Referências

Costa, E.O.; Ribeiro, A.R.; Watanabe, E.T.; Sá, R.; Silva, J.A. & Garino, Jr.F. Evaluations of dry cow treatment on bovine mastitis: cure rate and new infections rate. Poster Presententions of World Buiatrics Congress, XIX, Edinburgh, Scotland, 1996, p. 193-95.

Fonseca, L.F.L. Princípios básicos sobre funcionamento, dimensionamento, manutenção e avaliação dos sistemas de ordenha. Anais do 2º Encontro de Pesquisadores em Mastites Bovinas do Estado de São Paulo, 1996, p.11-27.

Figueredo, J.B. Mamite bovina: visão panorâmica de uma doença complexa. Anais do Congresso Brasileiro de Reprodução Animal, XI, 1995, p.176-94.

Lisboa, C.S.; Pianta, C. Redução da mastite através do tratamento duplo no período seco. Anais do Congresso Panamericano de Ciências Veterinárias, XIV, Acapulco, México, 1994, p.32.


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