| Durante
a gestação, o sistema reprodutivo
bovino, com sua placenta em camadas múltiplas,
deixa o feto em um ambiente imaturo, suscetível
à infecção. Abortos podem ocorrer
devido a infecção da placenta, inflamação
do ovário, morte do feto e/ou ruptura de
tampão cervical. Assim, a proteção
contra a doença reprodutiva é a mais
difícil de ser obtida. A vacinação
deve minimizar a quantidade/duração
da viremia/septicemia ou impedir que a doença
migre através da cervix.
As doenças reprodutivas e sua proteção
pela vacinação são áreas
de pesquisa ativa. Baseando-se em pesquisas atuais,
pode-se estabelecer um programa de vacinação
para auxiliar no controle das doenças reprodutivas.
Devido às várias causas de falhas
reprodutivas, a vacinação para prevenir
perdas por infecções reprodutivas
não parece ser efetiva. Isto geralmente
se deve ao fato de que não foi obtido um
diagnóstico acurado ou não foi determinada
a causa da incapacidade reprodutiva. Um programa
de vacinação pode ser inadequadamente
instituído quando a causa não é
infecciosa ou o programa atual pode ser injustamente
julgado ineficaz.
Vírus da diarréia viral bovina
O controle do vírus da diarréia
viral bovina (BVDV) está centrado na prevenção
e na eliminação dos animais persistentemente
infectados. A identificação e a
remoção de animais persistentemente
infectados e a vacinação continuada
para evitar animais persistentemente infectados
são necessárias para fundamentar
medidas eficazes de controle. Para que as demais
síndromes sejam entendidas torna-se necessário
rever a BVD não-citopática e acitopática.
Há muitas cepas diferentes de BVD, que
podem ser diferenciadas usando-se anticorpos monoclonais
e depois agrupado-as em famílias baseadas
em antígenos comuns. Todas as cepas BVD
são divididas em citopáticas (CP)
e não-citopáticas (NCP). Parece
que algumas destas cepas têm a habilidade
de mutação de NCP para CP. A BVD
citopática é rara na população
bovina.
Cepas Citopáticas versus não-citopáticas
A diferenciação CP/NCP é
determinada somente em laboratório. Quando
a cepa CP é cultivada em cultura celular,
os vírus destroem as células, enquanto
que a cepa NCP, não. A designação
NCP/CP não está relacionada com
a virulência da cepa. Algumas das mais virulentas
cepas in vivo são NCP in vivo.
Clinicamente não se pode dizer se o rebanho
está infectado por cepa NCP ou CP.
Síndrome reprodutiva
Estas diferenças ainda são importantes
pelo que podem causar no rebanho. As cepas CP
e NCP reagem de maneira muito diferente na vaca
prenhe não-imune. Se uma vaca não-imune
for exposta à cepa NCP, enquanto estiver
no primeiro trimestre de gestação,
pode ocorrer morte embriônica precoce, aborto,
mumificação ou podem nascer bezerros
persistentemente infectados (Tabela 1). Se ocorrer
exposição durante o segundo trimestre
surgirão defeitos no nascimento, envolvendo
principalmente tecido nervoso e, ocasionalmente,
infecções persistentes são
encontradas. Infecção durante o
último trimestre geralmente não
tem efeito sobre o feto, e o bezerro nascerá
com anticorpos contra BVD. Raramente há
uma exposição tão grande,
que cause aborto tardio.
Infecções persistentes ocorrem
pela infecção do feto no útero
até aproximadamente 125 dias de gestação
com uma cepa não-citopática de BVDV.
O mecanismo de transferência transplacentária
de BVDV é desconhecido; entretanto, pequenas
quantidades de vírus na corrente sanguínea
da mãe parecem ser suficientes para causar
o desenvolvimento destes bovinos imuno tolerantes.
Proteção da mãe pode ou não
ser correlacionada com proteção
do feto contra infecção persistente
subseqüente se ocorrer viremia na mãe.
A fim de quebrar o ciclo vicioso de uma infecção
de útero e infecção persistente,
é essencial que a vacinação
proporcione proteção fetal.
As cepas BVD também podem causar mortes
embrionárias precoces, abortos precoses
ou intermediários, nascimento de bezerros
fracos e/ou nascimento de bezerros persistentemente
infectados com o vírus BVD. Diversos estudos
foram realizados para avaliar a habilidade das
vacinas de proteger o feto contra um desafio natural
ou artificial. Quando analisadas, a maioria das
vacinas inativadas falhou em proporcionar efetiva
proteção fetal 3, 4, 5, 6, 7, com
exceção de uma vacina experimental
que proporcionou um alto nível de proteção
fetal 8.
Com esta vacina experimental não houve
isolamento de vírus dos bezerros filhos
das mães vacinadas, o que indicou uma boa
proteção, mas o desafio de controles
não-vacinados resultou em uma taxa de somente
cerca de 50% de infecções persistentes
nos descendentes. Foram publicados alguns estudos
sobre a efetividade da habilidade de vacinas BVDV
vivas modificadas na proteção do
feto.9. Até hoje, não se exige que
as vacinas licenciadas nos Estados Unidos proporcionem
proteção ao feto.
Herpes Vírus Bovinos Tipo 1
O vírus da IBR (Rinotraqueíte Infecciosa
Bovina) pode disseminar-se facilmente pelas secreções
respiratórias, oculares e reprodutivas
provenientes de animais infectados e permanecer
nos animais após infecções
em forma latente no gânglio trigêmeo.
BHV 1 causa infecções severas no
trato respiratório, com perda de 510%
por morte. Exposição ao BHV 1 no
campo pode causar até 25% de abortos. A
maioria dos abortos causados por BHV 1 é
observada no último trimestre de prenhez.
Entretanto, podem ocorrer em qualquer estágio
da prenhez. Expulsão do feto pode demorar
até 100 dias após exposição
ao vírus. Vacinação com BHV
1 viva modificada ou exposição natural
ao vírus pode causar infertilidade temporária,
devido a necrose folicular em vacas BHV 1 soronegativas.
Esta redução da taxa de concepção
após necrose folicular tem sido estimada
em 30%. Também foi mostrado que o efeito
no ovário não é observado
em novilhas soropositivas ou com a vacinação
com BHV 1 termos sensível. O vírus
BHV 1 pode causar morte embrionária precoce,
natimortos e nascimento de bezerros fracos.
Este vírus também pode causar falha
na concepção, como uma doença
venérea (vulvovaginite pustular infecciosa).
Lesões pustulares e necróticas são
observadas na vulva e no trato vaginal, e balanopostite
pode ser observada nos touros, bem como uma descarga
mucopurulenta. A doença é disseminada
principalmente pelos touros infectados e pode
ser causada pelo hábito de fungar do bovino.
Há poucos estudos publicados sobre a habilidade
das vacinas BHV 1 de proteger contra abortos,
e a proteção tem sido mostrada apenas
com vacinas BHV 1 vivas modificadas, principalmente
com a cepa termosseníivel 13.
Impacto Econômico das Síndromes
Reprodutivas de BVDV e BHV1
O aborto é o evento mais fácil
de ser medido na doença causada pelo vírus
BHV 1. Em alguns anos a infecção
por BHV 1 foi responsável por até
25% dos abortos diagnosticados nos Estados Unidos.
Quanto às outras formas é muito
mais difícil de mensurar o impacto econômico.
A BHV 1 e a BVDV são as duas causas virais
mais comuns de aborto em bovinos nos Estados Unidos.
O impacto econômico das infecções
por BVDV tem sido melhor definido. HOUEETt AL
estimou perdas por BVDV em US$ 2.380 - US$ 2.980,
por ano, em oito fazendas de leite da Dinamarca
(variação de US$7435.118).
Harkness determinou perdas anuais por BVDV em
US$48 milhões por problemas reprodutivos
na bovinocultura na Grã Bretanha. Bitsch
e Ronsholt estimaram o custo para fazendas de
leite e corte na Dinamarca em 17 milhões
de dólares. Um estudo profundo realizado
recentemente pela Universidade do Estado de Ohio
em uma grande fazenda de leite com incidência
de infecção por BVDV documentou
durante o ano uma perda mínima de US$ 473.468
e máxima de US$ 662.247. Altas taxas de
exposição a BHV 1 e BVDV são
comuns na maioria dos países com grandes
populações bovinas.
|
|
Tabela 1
Resumo dos Resultados de Diagnóstico
em Fetos Bovinos Abortados, 19871989
| |
Número |
|
| Diagnóstico |
1987 |
1988 |
1989 |
Total |
| BVD |
41 |
40 |
41 |
122 |
| IBR |
39 |
40 |
20 |
99 |
| Aborto
Micótico |
33
|
29
|
52
|
114 |
| Actinomyces
(Corynebacterium) |
17
|
35
|
33
|
85 |
|
Bacillus sp
|
40
|
33
|
24
|
97 |
| Listeriosis
|
14 |
2 |
8 |
24 |
| Leptospirose |
11 |
6 |
4 |
21 |
| Campylobacter
sp |
4 |
9 |
1 |
14 |
| Misc.
Bacteriano |
22 |
39 |
36 |
97 |
| Misc.
Viral |
9 |
3 |
3 |
15 |
| Gêmeos |
6 |
6 |
6 |
18 |
| Anomalia |
4 |
8 |
7 |
19 |
| Brucella
sp |
3 |
0 |
0 |
3 |
| Distocia |
2 |
9 |
11 |
22 |
| Diagnóstico
total |
245 |
259 |
246 |
750 |
| Não-diagnosticado |
464 |
560 |
522 |
1.546 |
| Total
de casos |
709 |
819 |
768 |
2.296 |
Com permissão de BEEF, Primavera 1990
Direitos Reservados 1990 pela Webb Agricultural
Publications
Todos os Direitos Reservados |
Tabela 2
Doenças reprodutivas observadas após
infecção
| |
BHV
1 |
BVDV |
| Lesões
vaginais e vulvares |
Sim
(IPV) |
Não |
| Concepção
diminuída |
Sim |
Sim |
| Morte
embrionária precoce |
Sim |
Sim |
| Feto
mumificado |
Não |
Sim |
| Infecção
persistente |
Não
(latência bem documentada) |
Sim |
| Sêmen
infectado |
Sim
(somente durante infecção aguda)
|
Sim |
| Abortos |
Sim
(geralmente termo tardio) |
Sim (geralmente 2º trimestre) |
Recém-nascidos,
bezerros fracos |
Sim |
Sim |
Tabela 3
Conseqüências de exposição
à BVDV durante a prenhez
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