| INTRODUÇÃO
A diarréia neonatal dos bezerros é uma síndrome
de etiologia multifatorial, resultante da
interação entre agentes infecciosos (bactérias,
toxinas bacteriana, vírus, protozoários,
parasitas), fatores não-infecciosos relacionados
à alimentação e ao meio ambiente relacionado
às condições de higiene dos criatórios,
densidade, manejo, condições sanitárias
das mães (Benesi, 1996). É uma das principais
causas de perdas econômicas em bovinos jovens
de leite e de corte. Bezerros acometidos
por diarréia desenvolvem uma severa desidratação,
desbalanço eletrolítico, acidose e, em casos
severos, morte do bezerro. Entre as causas
infecciosas da diarréia neonatal dos bezerros,
incluem-se as bactérias enterotoxigênicas
como a Escherichia coli K99, que
provocam a síndrome entérica nos bezerros
pela colonização dos enterócitos pelo pili
ou antígeno de aderência K99 e produção
de enterotoxinas (Valente et al., 1988).
Entre as causas bacterianas importantes
incluem-se ainda o Clostridium perfringens,
principalmente o tipo C, causador de enterotoxemia
hemorrágica (Pestana de Castro & Yano, 1992).
Outros agentes como Salmonella ou
causas parasitárias também podem estar envolvidos,
entretanto estes últimos agentes tendem
a causar diarréia mais tardiamente. Entre
os vírus os mais importantes são os Rotavírus
e Coronavírus (Jerez et al., 1988; Weiblen,
1992, Buzinaro et al., 1996). Além destes,
destacam-se ainda os agentes parasitários
como Cryptosporidium e Coccidia
(Charles et al., 1992; Lima, 1992; Souza
& Lopes, 1992).
Os vírus e os protozoários causam lesões
nas células das vilosidades intestinais,
resultando em atrofia dessas vilosidades,
ocorrendo em conseqüência dificuldade de
absorção e digestão dos alimentos, fermentação
e permanência de substâncias não digeridas
na luz intestinal, resultando nas diarréias.
Os efeitos da proteção pelo colostro em
relação à incidência e severidade da diarréia
infecciosa neonatal estão bem estabelecidos
(Valente et al., 1988; Wittum & Perino,
1995; Yano et al., 1995). O presente estudo
teve por objetivo avaliar o controle da
diarréia neonatal causada por Escherichia
coli, Rotavírus, Coronavírus e Clostridium
perfringens tipo C nas condições de
campo no Brasil, pela utilização da vacina
ScourGuard 3 (K)/C (Marca Registrada de
Pfizer Inc.), indicada para vacinação das
vacas prenhes e transferência de anticorpos
pelo colostro aos recém-nascidos.
MATERIAL E MÉTODO
O estudo foi conduzido em 36 fazendas de
gado de corte e leite em diversas regiões
do Brasil sem histórico anterior de vacinação
das vacas contra a diarréia neonatal em
bezerros. Foram utilizadas no total 720
vacas ou novilhas prenhes de corte e de
leite de diferentes raças e idades, criadas
sob diferentes condições climáticas e de
manejo. Em cada fazenda foram selecionadas
20 vacas e/ou novilhas no terço final da
gestação e com idade variando entre 24 e
154 meses. No dia 0, a prenhez foi confirmada
por palpação retal e selecionaram-se aquelas
que apresentavam idade gestacional acima
de 7 meses. Neste mesmo dia, as vacas ou
novilhas selecionadas receberam a primeira
dose da vacina ScourGuard 3 (K)/C. Duas
a três semanas antes da data prevista para
o parto, elas receberam a segunda vacinação
na dose de 2 ml via IM. Após cada vacinação,
os animais foram observados por aproximadamente
uma hora e a seguir diariamente até a parição,
sendo anotadas as ocorrências indesejáveis.
Após o nascimento, os bezerros foram mantidos
juntos com suas mães por um período mínimo
de 24 horas para garantir a ingestão de
colostro dentro das primeiras horas de vida.
Todos os bezerros nascidos das vacas vacinadas
foram observados até 30 dias de idade para
sinais clínicos de diarréia, sendo anotadas
a presença e a gravidade da doença, além
de outras observações.
RESULTADO E DISCUSSÃO
Foram envolvidas neste estudo 720 vacas
ou novilhas pertencentes a 36 fazendas com
histórico de diarréia em bezerros recém-nascidos.
Do total de 720 novilhas ou vacas prenhes
vacinadas, nasceram 701 (97,4%) bezerros
vivos e saudáveis (Tabela 1). Dezenove
(19) vacas ou novilhas (2,6%) tiveram natimortos
por problemas de partos distóxicos/gemelares
ou acidentes com as vacas. Dos 701 bezerros
nascidos vivos, 52 apresentaram diarréia
dentro dos primeiros trinta dias de vida,
representando uma freqüência de 7,4%. Esta
porcentagem é numericamente menor do que
a média geral de diarréia (25%) informada
pelos proprietários ou veterinários segundo
suas observações pessoais. Dos 52 bezerros
que tiveram diarréia, 31 (59,6%) apresentaram
diarréia branda, 16 (30,7%) moderada e apenas
5 (9,6%) apresentaram diarréia considerada
grave (Tabela 2). Não se pesquisou
a etiologia exata destas diarréias devido
às dificuldades, restringindo-se
o estudo a observações clínicas. Do total
de bezerros com diarréia, apenas um foi
a óbito, sendo que 51 recuperaram-se com
uma ou duas doses de tratamento antibacteriano.
Os resultados obtidos com este estudo mostram
que, embora não tenha sido confrontado com
um grupo controle similar aos grupos vacinados,
houve uma freqüência de casos bem reduzida
em relação ao histórico da maioria das propriedades.
As diarréias foram inferiores aos achados
de outros autores como Madruga et al., (1982)
que reportaram a ocorrência de diarréia
em 55% dos casos de doença dos bezerros
de corte e informe pessoal de Ortolani &
Jerez, citado por Benesi (1996), que encontraram
uma cifra de 42,9% de diarréia, sendo a
principal doença diagnosticada de um total
de 653 bezerros enfermos com idade até 60
dias. Os resultados deste estudo mostram
ainda que a diarréia em bezerros recém-nascidos
é uma enfermidade de alta incidência tanto
na exploração para corte como para leite
e que o uso da vacina ScourGuard 3 (K)/C
composta dos antígenos inativados de Rotavírus,
Coronavírus, pela bacterina de Escherichia
coli e toxóide de Clostridium perfringens
tipo C, é segura e apresenta alta eficácia
no controle da diarréia neonatal causada
pelos agentes infecciosos citados. A vacinação
de vacas prenhes com a vacina ScourGuard
3 (K)/C representa uma ferramenta de grande
utilidade para os médicos veterinários e
fazendeiros como auxiliar na prevenção da
diarréia neonatal. Deve-se sempre assegurar
a ingestão do colostro pelo recém-nascido
nas primeiras horas de vida e aliar uma
excelente prática de manejo alimentar, higiene
dos criatórios e medidas gerais de profilaxia
a fim de reduzir o desafio e aumentar a
eficácia do programa de controle da diarréia
neonatal, melhorando, desta forma, os retornos
econômicos.
Tabela 1. Número de vacas vacinadas, número
de bezerros nascidos vivos, número e porcentagem
de bezerros com diarréia e histórico da
incidência de diarréia em cada fazenda.
| Teste |
Localização
das Fazendas |
Vacas
ou Novilhas |
Bezerros
com diarréia / nascidos vivos (%) |
Histórico
da incidência de diarréia nas Fazendas* |
| 1 |
Dourados
(MS) |
21 |
2/20
(10%) |
28% |
| 2 |
Santa
Inês (MA) |
20 |
0/19
(0%) |
18% |
| 3 |
Anapólis
(GO) |
20 |
1/16
(6,3%) |
20% |
| 4 |
Rio
Verde (GO) |
20 |
5/19
(26,3%) |
8% |
| 5 |
Miranda
do Norte (MA) |
20 |
1/20
(5%) |
35% |
| 6 |
Major
Isidoro (AL) |
20 |
0/18
(0%) |
30% |
| 7 |
Ubiratan
(PR) |
20 |
0/20
(0%) |
5% |
| 8 |
Timon
(MA) |
20 |
1/20
(5%) |
15% |
| 9 |
Fortim
(CE) |
20 |
5/20
(25%) |
30% |
| 10 |
Bananal
(BA) |
20 |
4/20
(20%) |
50% |
| 11 |
Chapada
dos Guimarães (MT) |
20 |
0/20
(0%) |
1% |
| 12 |
Ribas
do Rio Pardo (MS) |
20 |
2/19
(10,5%) |
13% |
| 13 |
Campo
Grande (MS) |
20 |
0/21
(0%) |
15% |
| 14 |
Coxim
(MT) |
20 |
2/19
(10,5%) |
3% |
| 15 |
Jaboatão
(PE) |
20 |
0/19
(0%) |
15% |
| 16 |
São
Carlos (SP) |
20 |
1/20
(5%) |
3% |
| 17 |
Barretos
(SP) |
20 |
2/20
(10%) |
30% |
| 18 |
Jardim
(MS) |
20 |
0/20
(0%) |
5% |
| 19 |
Linhares
(ES) |
20 |
0/20
(0%) |
35% |
| 20 |
José
Bonifácio (SP) |
20 |
0/20
(0%) |
19% |
| 21 |
Cachoeira
(BA) |
20 |
5/19
(26,3%) |
50% |
| 22 |
Bela
Vista (GO) |
20 |
2/17
(11,8%) |
50% |
| 23 |
Içara
(SC) |
20 |
2/20
(10%) |
5% |
| 24 |
Joaquim
Távora (PR) |
20 |
0/20
(0%) |
15% |
| 25 |
Capitólio
(MG) |
20 |
0/20
(0%) |
7% |
| 26 |
Pará
de Minas (MG) |
20 |
0/19
(0%) |
30% |
| 27 |
São
G. do Amarante (RN) |
20 |
3/19
(15,8%) |
90% |
| 28 |
Indiana
(SP) |
20 |
3/20
(15%) |
25% |
| 29 |
Ahumas
(SP) |
20 |
1/18
(5,6%) |
30% |
| 30 |
Ipixuna
(PA) |
20 |
1/20
(5%) |
50% |
| 31 |
Anapólis
(GO) |
20 |
0/20
(0%) |
30% |
| 32 |
Peritoró
(MA) |
20 |
2/20
(10%) |
27% |
| 33 |
Pres.
Kennedy (ES) |
20 |
6/20
(30%) |
45% |
| 34 |
Ariquemes
(RO) |
20 |
1/20
(5%) |
15% |
| 35 |
Eunápolis
(BA) |
20 |
2/20
(10%) |
30% |
| 36 |
Chapecó
(SC) |
20 |
2/19
(10,5%) |
30% |
| |
Total:
36 fazendas |
20 |
52/701
(7,4%) |
25% |
* Informações do Veterinário/Proprietário.
Tabela 2. Localização das fazendas onde
ocorreu diarréia, número de bezerros com
diarréia e severidade da diarréia.
| Teste |
Localização
Das Fazendas |
Número
de bezerros com diarréia |
Severidade
da diarréia |
| Leve
|
Moderada |
Grave |
| 1 |
Dourados
(PR) |
2 |
2 |
0 |
0 |
| 3 |
Anapólis
(GO) |
1 |
1 |
0 |
0 |
| 4 |
Rio
Verde (GO) |
5 |
2 |
3 |
0 |
| 5 |
Miranda
do Norte (MA) |
1 |
1 |
0 |
0 |
| 8 |
Timon
(MA) |
1 |
0 |
1 |
0 |
| 9 |
Fortim
(CE) |
5 |
3 |
2 |
0 |
| 10 |
Bananal
(BA) |
4 |
4 |
0 |
0 |
| 12 |
Ribas
do Rio Pardo (SP) |
2 |
0 |
2 |
0 |
| 14 |
Coxim
(MT) |
2 |
1 |
1 |
0 |
| 16 |
São
Carlos (SP) |
1 |
1 |
0 |
0 |
| 17 |
Barretos
(SP) |
2 |
2 |
0 |
0 |
| 21 |
Cachoeira
(BA) |
5 |
0 |
5 |
0 |
| 22 |
Bela
Vista (GO) |
2 |
0 |
0 |
2 |
| 27 |
São
G. do Amarante (RN) |
3 |
1 |
1 |
1 |
| 28 |
Indiana
(SP) |
3 |
3 |
0 |
0 |
| 29 |
Ahumas
(SP) |
1 |
1 |
0 |
0 |
| 30 |
Ipixuna
(PA) |
1 |
1 |
0 |
0 |
| 32 |
Peritoró
(MA) |
2 |
1 |
1 |
0 |
| 33 |
Pres.
Kenedy (SP) |
6 |
5 |
0 |
1 |
| 34 |
Ariquemes
(RO) |
1 |
1 |
0 |
0 |
| 35 |
Eunápolis
(BA) |
2 |
1 |
0 |
1 |
| |
Total:
21 fazendas |
52 |
31 |
16 |
5 |
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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dos bezerros. Anais do I Simpósio Pfizer
sobre Doenças Infecciosas e Vacinas para
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