AVALIAÇÃO TÉCNICA E ECONÔMICA DA PECUÁRIA DE CORTE

 

José Roberto Canziani

Departamento de Economia Rural da UFPR

Resumo
Com o objetivo de ilustrar o uso de algumas técnicas de avaliação econômica, para o planejamento e a solução de problemas em propriedades de pecuária de corte, são analisados três casos hipotéticos: a economicidade da reforma de pastagens perenes, a melhoria no sistema de alimentação do rebanho e a melhoria no manejo sanitário dos animais. Ressalta-se que, na elaboração de análises econômicas, uma das principais dificuldades é isolar ou separar adequadamente o problema em estudo, dada a ampla variedade de fatores inter-relacionados que compõem o sistema de produção na pecuária de corte e a dinâmica das atividades de cria, recria e engorda que interferem na evolução do rebanho pecuário. Assim, é comum na formulação de problemas econômicos, a super ou subavaliação dos custos e/ou dos benefícios adicionais proporcionados exclusivamente pelas alterações no sistema de produção, vis-à-vis, à situação anterior às mudanças.

A metodologia de se trabalhar com cenários, por exemplo, permite: (1) incorporar o risco na avaliação econômica; (2) identificar a sensibilidade dos retornos esperados, dada à ocorrência de variações em coeficientes técnicos, índices zootécnicos de produtividade, preços de insumos e produtos, etc.; (3) tomar decisões com maior nível de certeza. Outro procedimento metodológico interessante, na tentativa de se isolar o problema econômico em estudo, é avaliar, separadamente, as situações com e sem a mudança tecnológica proposta e, por diferença de valores, estimar os benefícios adicionais e os custos adicionais proporcionados pela alteração tecnológica. Normalmente, a avaliação em separado das duas situações facilita a identificação das variáveis que realmente se alteram, com a incorporação da nova tecnologia. A melhoria de conhecimentos, habilidades e atitudes, por parte dos produtores e dos profissionais da assistência técnica, visando à correta aplicação das técnicas de avaliação econômica, pode minimizar as incertezas vinculadas ao processo de tomada de decisões nas propriedades rurais. Palavras-chaves: Pecuária de corte, análise econômica, administração rural.


1 - O problema da pesquisa

Na pecuária de corte, a elaboração de análises econômicas para subsidiar o processo de tomada de decisões possui algumas particularidades inerentes à atividade. Essas particularidades precisam ser devidamente consideradas, quando se pretende identificar a viabilidade econômica de mudanças no sistema de produção, a fim de se evitar erros na formulação do problema em estudo e na interpretação dos resultados. As mudanças mais comuns no sistema de produção da pecuária de corte, normalmente, estão relacionadas a melhorias na genética, na alimentação e na sanidade do rebanho.
Na maioria das vezes, a maior dificuldade na elaboração de análises econômicas é isolar ou separar adequadamente o problema em estudo, dada a ampla variedade de fatores inter-relacionados que compõem o sistema de produção na pecuária de corte e a dinâmica das atividades de cria, recria e à engorda que interferem na evolução do rebanho pecuário. Nesse sentido, é comum, na formulação de problemas econômicos, a super ou a subavaliação dos custos e/ou dos benefícios adicionais proporcionados exclusivamente pelas alterações no sistema de produção, vis-à-vis, à situação anterior às mudanças.
No caso das estimativas de valor para os benefícios adicionais (geração adicional de receitas e/ou rendas), o longo tempo necessário para se completar o ciclo de produção na pecuária de corte (que é normalmente superior a 2,5 anos) aparece como uma dificuldade adicional. É difícil, por exemplo, prever com exatidão, em nível das propriedades rurais, qual será o ganho de peso adicional (incremental), ao longo do tempo, das diferentes categorias animais de um rebanho; ou quais serão as mudanças adicionais (incrementais) nas taxas de natalidade e de mortalidade, quando se incorporam algumas novas tecnologias de manejo na propriedade. Essas dificuldades na formulação e de avaliação de problemas econômicos ocorrem, também, pela dificuldade de se extrapolar com precisão os resultados das pesquisas zootécnicas de campo e pela, em geral, ausência de correspondentes avaliações econômicas na divulgação dos resultados dessas pesquisas zootécnicas.

2 - Objetivos e organização da pesquisa

O objetivo geral desse artigo é ilustrar o uso de diferentes técnicas de avaliação econômica, para o planejamento e a solução de problemas em propriedades de pecuária de corte. Serão apresentadas três técnicas de avaliação econômica, a fim de se avaliar, para casos hipotéticos, a economicidade da reforma de pastagens perenes, da melhoria no sistema de alimentação do rebanho e da melhoria no manejo sanitário dos animais. A idéia básica do artigo é repassar aos leitores algumas formas de avaliação de problemas econômicos e não os resultados numéricos dos exemplos que serão apresentados adiante. Com isso, espera-se que a assistência técnica e/ou os próprios produtores possam avaliar com maior precisão seus casos particulares.

O presente texto está organizado da seguinte forma: no item 3, a seguir, fazem-se considerações sobre a metodologia da pesquisa, no qual se apresenta a base teórica relacionada às três técnicas de avaliação econômica utilizadas no estudo; no item 4, é feita a apresentação e a discussão dos resultados para os exemplos hipotéticos considerados no estudo; e, no item 5, fazem-se as considerações finais.

3 - Metodologia

Na falta de certeza sobre o exato valor dos custos adicionais e/ou dos benefícios adicionais proporcionados por alterações na tecnologia utilizada na propriedade rural, uma boa opção é avaliar economicamente as alternativas em estudo, sob diferentes cenários. A metodologia de se trabalhar com cenários, por exemplo, com cenários pessimistas, normais e otimistas, permitem: (1) incorporar o risco na avaliação econômica; (2) identificar a sensibilidade dos retornos esperados, dado à ocorrência de variações em coeficientes técnicos, índices zootécnicos de produtividade, preços de insumos e produtos, etc.; (3) tomar decisões com maior nível de certeza. Outro procedimento metodológico interessante, na tentativa de se isolar o problema econômico em estudo, é avaliar, separadamente, as situações com e sem a mudança tecnológica proposta e, por diferença de valores, estimar os benefícios adicionais e os custos adicionais proporcionados pela alteração tecnológica. Normalmente, a avaliação em separado das duas situações facilita a identificação das variáveis que realmente se alteram, com a incorporação da nova tecnologia.

Dentre os métodos ou técnicas de avaliação econômica, que podem ser utilizados para se identificar a viabilidade de mudanças em sistemas de produção na agropecuária, destacam-se: (1) a técnica do orçamento parcial, utilizada principalmente quando a mudança tecnológica a ser avaliada economicamente não envolve investimentos, mas apenas proporciona alterações nos fluxos futuros de receitas e despesas; (2) a técnica de avaliação de projetos de fluxo incremental, utilizada principalmente quando a mudança tecnológica, que altera o sistema de produção, exige investimentos em ativos fixos. Nesse caso, normalmente o que se pretende fazer é a seleção entre dois projetos mutuamente exclusivos; (3) a técnica da seleção (avaliação comparativa) de projetos de investimento. Nesse caso, analisam-se, simultaneamente, vários projetos alternativos, e, por comparação, seleciona-se aquele de maior viabilidade econômica.

3.1. Orçamento parcial

A técnica do orçamento parcial é freqüentemente utilizado em avaliações econômicas, quando se pretende comparar a economicidade de duas alternativas mutuamente exclusivas. Por exemplo, a situação ou alternativa A versus a situação ou alternativa B.
Considerando-se que a alternativa A represente a situação atual, e a alternativa B a situação proposta, normalmente se utiliza o orçamento parcial para se saber sobre a viabilidade econômica de se passar de A para B. Ou seja, pretende-se saber se os ganhos líquidos são positivos com a adoção da situação proposta.

A passagem de A para B pode gerar ganhos (benefícios) e/ou perdas (custos). Os ganhos, proporcionados pela mudança, podem ocorrer mediante aumentos de receita e/ou reduções de custos. As perdas, por sua vez, podem ocorrer mediante reduções de receitas e/ou aumento de custos. O esquema, abaixo, ilustra as possibilidades de ganhos e perdas.

Alternativa A: situação atual
Alternativa B: situação proposta
Ganhos com a passagem de A para B:
Aumento de receitas
Reduções de custos
Perdas com a passagem de A para B:

Aumento de custos
Reduções de receitas



Em termos de resultado, a alternativa B é preferível à alternativa A quando os ganhos, decorrentes da mudança, superam as perdas, ou seja, quando o ganho líquido é positivo. Na igualdade entre ganhos e perdas tem-se o ponto de equilíbrio ou nivelamento, e uma conseqüente situação de indiferença entre as duas alternativas. A identificação quantitativa do ponto de equilíbrio e, a sua respectiva sensibilidade às variações dos parâmetros considerados em seu cálculo, corresponde a uma importante informação auxiliar ao processo de tomada de decisão. Se pequenas alterações nos parâmetros utilizados no cálculo proporcionam grandes alterações no ponto de equilíbrio, a mudança tecnológica é de maior risco, caso contrário, sua adoção é de baixo risco econômico.


3.2. Avaliação de projetos

Todo projeto apresenta fluxos de entrada e saída de recursos. A diferença entre estes fluxos é chamada de fluxo líquido ou de entradas líquidas de caixa. Sobre o fluxo líquido aplicam-se as técnicas de desconto para calcular a rentabilidade real dos investimentos.

VPL = ? Valor Atual das Receitas
- ? Valor Atual dos Custos

VPL = ? Valor Atual das Entradas
Líquidas de Caixa
Se VPL c/ CMPC% > 0, o projeto é viável.
Se VPL c/ CMPC% < 0, o projeto é inviável.
Se VPL c/ CMPC% = 0, o projeto é indiferente.

Dentre os critérios de avaliação de projetos, os métodos que consideram a dimensão tempo dos valores monetários são mais precisos, pois o valor real do dinheiro não permanece constante ao longo do tempo, ou seja, raramente o custo de oportunidade do capital é zero. Assim, uma vez conhecida a taxa de desconto relevante para uma empresa ou projeto, denominada Custo Médio Ponderado do Capital da empresa (CMPC) ou custo médio ponderado do capital do projeto, pode-se transformar valores nominais, que ocorrem em datas diferentes, em valores reais, expressos em uma mesma data-base. Com esse procedimento os valores de um fluxo de caixa tornam-se comparáveis, tornando possível a avaliação de projetos individuais e a seleção entre projetos alternativos.

Os principais métodos para a avaliação do fluxo líquido dos projetos são: o VPL (Valor Presente Líquido); o VPLA (Valor Presente Líquido Anualizado); a TIR (Taxa Interna de Retorno); a TRF (Taxa de Retorno de Fischer); a relação B/C (Relação Benefício–Custo); e o PRC (Período de Recuperação do Capital).

O VPL expressa o lucro do projeto já descontado o CMPC. É o que o projeto rende, em valores atuais absolutos, acima do CMPC. A expressão abaixo apresenta a forma de cálculo do VPL. Na expressão, o termo "atual" representa que o fluxo líquido nominal (expresso em valores nominais) foi transformado para valores presentes, considerando uma determinada taxa de desconto. Se o VPL resultante for positivo, o projeto é viável, a essa taxa de desconto. Se for negativo o projeto, é inviável e, se for igual a zero, o projeto é indiferente, ou seja, proporciona um lucro igual ao que seria obtido em um investimento alternativo considerando-se a mesma taxa de desconto.

Por definição, a TIR é aquele valor de taxa de juros que torna o VPL igual a zero. A TIR expressa a lucratividade percentual do projeto sobre o capital empatado durante sua vida útil. Dependendo das características do fluxo líquido de caixa do projeto, a TIR pode ser indeterminada.

Se TIR > CMPC%, o projeto é viável.
Se TIR < CMPC% , o projeto é inviável.
Se TIR = CMPC%, o projeto é indiferente.


A relação custo–benefício é o que o projeto rende, em valores atuais absolutos, para cada unidade de custo, já descontado o CMPC.


B/C = ? Valor Atual das Receitas
/ ? Valor Atual dos Custos
Se B/C c/ CMPC% > 1, o projeto é viável.
Se B/C c/ CMPC% < 1, o projeto é inviável.
Se B/C c/ CMPC% = 1, o projeto é indiferente.


No mundo real, as alternativas de investimento em uma determinada atividade agropecuária raramente são totalmente independentes entre si. Porém, para efeito de avaliações econômicas, quando o grau de interação (influência de um projeto sobre o fluxo de caixa de outro projeto) é pequeno, pode-se considerar que os projetos são independentes. Quando, por outro lado, a implantação de um projeto impede a do outro, dizemos que os projetos são mutuamente exclusivos ou substitutos perfeitos. Entre os dois extremos, na prática há muitos graus de complementaridade entre projetos. Quando determinado projeto é independente dos demais, tanto o critério do VPL como da TIR permite chegar consistentemente à mesma decisão final, assumindo que a TIR exista e seja única. Entretanto, quando dois projetos são mutuamente exclusivos, os dois métodos de análise (TIR e VPL) nem sempre indicam a mesma escolha.

Entre os métodos que usam fatores de desconto, o VPL é mais preciso do que os demais, na maioria dos casos. Entretanto, é preciso reconhecer que a TIR é bem mais atrativa como método de análise, pois sua interpretação, por ser uma porcentagem de crescimento, é mais fácil

e cômoda. De qualquer forma, seja qual for o método de avaliação adotado, é necessário considerar ainda as seguintes dificuldades adicionais na seleção de projetos alternativos: diferentes volumes de investimentos; horizontes diferentes; diferenças nos períodos de implantação, e diferenças dos níveis de risco dos projetos alternativos, entre outras. Por sorte, na prática, as empresas rurais dificilmente terão problemas de escolha entre uma série de projetos alternativos ao mesmo tempo. Em geral, as decisões de investimento são feitas, por um lado, na forma de pequenos projetos destinados a modificar parcialmente a organização da empresa. Por outro lado, os grandes projetos normalmente se compõem de um conjunto de atividades complementares. Em vez de muitos projetos competitivos tem-se de fato um único projeto, que pode ou não ser redimensionado dependendo dos recursos disponíveis e das condições da empresa (Noronha, 1987).

Um princípio fundamental na avaliação de projetos é a correta construção dos fluxos de caixa. Isso significa que devem ser considerados no projeto apenas as receitas e despesas que podem ser atribuídas diretamente à decisão de implementá-lo. Assim, aquelas despesas e receitas que a empresa teria necessariamente de fazer ou receber, na ausência do projeto, são irrelevantes para a formação dos fluxos de caixa. Na agropecuária, como as decisões de investimento normalmente estão relacionadas às alterações de um sistema de produção já em andamento, às vezes é mais fácil construir dois fluxos de caixa (com e sem as alterações) e, por diferença, avaliar o fluxo líquido resultante, mediante a Taxa de Retorno de Fischer (TRF).

Por definição, a TRF é o valor da taxa de desconto que iguala o VPL das duas alternativas (por exemplo, A e B) em análise. Para taxas de desconto (ou CMPC) acima ou abaixo da TRF, uma alternativa (A ou B) será preferível à outra, e, vice-versa, sendo possível a seleção de projetos mutuamente exclusivos.

4. Apresentação e discussão dos resultados

Para exemplificar a utilização das três técnicas, serão consideradas, nesse estudo, três situações hipotéticas distintas. Na primeira, será apresentado um exemplo para identificar a viabilidade econômica da melhoria no manejo sanitário dos animais, que compõem o rebanho da propriedade. Nesse caso, o problema em estudo será avaliado com a técnica da orçamentação parcial. Na segunda situação, será apresentado um exemplo para identificar a viabilidade econômica da reforma de pastagens na propriedade. Por serem as pastagens um ativo fixo e as duas situações alternativas (pastagens com ou sem reforma) serem mutuamente exclusivas, nesse caso, o problema em estudo será tratado com a técnica de avaliação de projetos de fluxo incremental. Por fim, na terceira situação, vários sistemas de alimentação do rebanho (mais ou menos intensivos) serão comparados entre si,por meio da técnica de seleção de projetos.

4.1. Melhoria no manejo sanitário

Normalmente, a introdução de melhorias no manejo sanitário de um rebanho bovino proporciona aumentos no desembolso com os animais e, também, aumentos na produtividade, com conseqüente ampliação da renda da exploração pecuária. Na maioria dos casos, a ampliação dos gastos para a melhoria do manejo sanitário envolve pequenos desembolsos adicionais, relativamente ao custo total de produção de bovinos ou à movimentação financeira total da propriedade pecuária. Mesmo assim, em muitos casos, produtores e técnicos descartam a introdução de novas práticas de manejo sanitário por não considerar, adequadamente, os benefícios econômicos por ela proporcionados. Com a técnica da orçamentação parcial pretende-se avaliar, para uma situação hipotética, se a introdução das melhorias resulta ou não em ganhos líquidos positivos.

O caso em estudo compreende um rebanho composto por 1.535 cabeças no ano-base, que são avaliadas, em conjunto, pelo valor aproximado de R$ 696 mil. As tabelas 1 e 2 projetam a renda adicional para o rebanho, considerando-se, respectivamente, o atual manejo sanitário utilizado na propriedade (situação atual) e um novo sistema de manejo sanitário mais intensivo (situação proposta). A projeção da renda de uma exploração de bovinos de corte envolve: (a) o aumento líquido do número de cabeças no rebanho, em função dos nascimentos de bezerros e mortalidade dos animais; (b) a mudança de categoria dos animais, em função do crescimento e engorda. Em análises econômicas para a pecuária de corte, o critério de se projetar a renda é preferível às estimativas de receita, pois a política de comercialização das diferentes categorias animais é muito variável entre as propriedades de pecuária de corte.

No caso em estudo, as razões que explicam o maior aumento de renda adicional na situação proposta são: (1) aumento da taxa de natalidade de 75% para 85%; (2) redução da taxa de mortalidade, de animais com até 1 ano, de 3% para 2,5%; e (3) redução da taxa de mortalidade, de animais com mais de 1 ano, de 1% para 0,7%. Nesse caso, não foi considerado nenhum benefício adicional pela melhoria no manejo sanitário, em termos de ganho de peso das diferentes categorias animais. Ressalta-se, porém, que esse tipo de ganho poderia existir e, se fosse o caso, se deveria considerar os novos pesos para as diferentes categorias animais. No caso considerado, o ganho adicional, com a passagem da situação atual para a situação proposta, é estimado em R$ 13.797,25 por ano.

Do lado dos custos, a melhoria no manejo sanitário compreende os seguintes aumentos nos gastos anuais: (1) vacinas e medicamentos, de R$ 3,28 para R$ 5,83 por cabeça; (2) sal mineral, de R$ 9,76 para R$ 12,20 por cabeça; (3) mão-de-obra, serviços e outros gastos: de R$ 3,67 para R$ 4,02 por cabeça. Dessa forma, o custo adicional, com a passagem da situação atual para a situação proposta, é estimada em R$ 8.064,64 por ano.

No caso em estudo, o ganho líquido adicional seria positivo e estimado em R$ 5.732,62 por ano, tornando viável a adoção da situação proposta.

Alguns softwares, como o aplicativo ATEPEC, por exemplo, possibilitam ao usuário a simulação de diferentes situações e, conseqüentemente, a identificação das variações nos resultados em função de alterações nos níveis dos custos e dos benefícios adicionais. O aplicativo ATEPEC - Análise Técnica e Econômica da Pecuária de Corte1 foi o software utilizado nesse estudo para a idealização empírica das situações-problemas.

Tabela 1

Exemplo de quadro contendo a estimativa para a evolução de um rebanho, de acordo com a atual situação de manejo sanitário utilizado na propriedade.


  Rebanho no ano-base Rebanho no ano 1
Categorias do rebanho Número de Animais Peso Médio Animais (Kg PV) Valor Rebanho (R$) Número de Animais Valor Rebanho (R$) Renda Adicional (R$)
Matrizes 495 460 284.625,00 653 375.705,00 91.080,00
Bezerras até 1 ano 176 160 35.200,00 186 37.125,00 1.925,00
Bezerros até 1 ano 176 180 42.768,00 186 45.106,88 2.338,88
Novilhas de 1 a 2 anos 169 290 61.262,50 171 61.886,00 623,50
Garrotes de 1 a 2 anos 169 320 73.008,00 171 73.751,04 743,04
Novilhas de 2 a 3 anos 165 410 84.562,50 167 85.746,38 1.183,88
Bois de 2 a 3 anos ou + 165 450 100.237,50 331 215.209,91 114.972,41
Touros 20 550 14.850,00 20 14.701,50 (148,50)
Total 1.535   696.513,50 1.884 909.231,70 212.718,20

Fonte: Valores hipotéticos.


Tabela 2

Exemplo de quadro contendo a estimativa para a evolução de um rebanho,
de acordo com uma nova situação de manejo sanitário para a propriedade
.



  Rebanho no ano-base Rebanho no ano 1
Categorias do rebanho Número de Animais Peso Médio Animais (kg PV) Valor Rebanho (R$) Número de Animais Valor Rebanho (R$) Renda Adicional (R$)
Matrizes 495 460 284.625,00 655 376.843,50 92.218,50
Bezerras até 1 ano 176 160 35.200,00 210 42.075,00 6.875,00
Bezerros até 1 ano 176 180 42.768,00 210 51.121,13 8.353,13
Novilhas de 1 a 2 anos 169 290 61.262,50 172 62.205,00 942,50
Garrotes de 1 a 2 anos 169 320 73.008,00 172 74.131,20 1.123,20
Novilhas de 2 a 3 anos 165 410 84.562,50 168 86.006,21 1.443,71
Bois de 2 a 3 anos ou + 165 450 100.237,50 332 215.862,06 115.624,56
Touros 20 550 14.850,00 20 14.746,05 (103,95)
Total 1.535   696.513,50 1.939 922.990,15 226.476,65

Fonte: valores hipotéticos


4.2. Reforma de pastagens

Normalmente, a intensificação da reforma de pastagens proporciona um aumento em sua capacidade de suporte (índice de lotação) e/ou a melhoria no nível de ganho de peso dos animais.

1 CANZIANI, J. R & DOSSA, D. In: SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM RURAL: Administração Regional do Paraná. Avaliação Técnica e Econômica da Bovinocultura de Corte. Curitiba. 2000. 42 p.

A análise sobre a viabilidade econômica da reforma intensiva de pastagens deve considerar: (1) o investimento líquido adicional necessário para a intensificação do processo de reforma das pastagens; (2) o investimento líquido adicional necessário para a aquisição do gado, a fim de "preencher" a nova capacidade de suporte das pastagens melhoradas; (3) o aumento de despesas para a manutenção do rebanho adicional (4) o aumento de despesas devido melhorias no sistema de manutenção das pastagens, por exemplo, com maiores níveis de adubação de manutenção; e (5) o aumento na renda devido à melhoria nos níveis de ganho de peso dos animais que compõem o rebanho.

Com a técnica da avaliação de projetos de fluxo incremental pode-se identificar, por exemplo, qual é o nível da taxa de juros (ou CMPC) que torna viável a intensificação da reforma de pastagens. A tabela 3 apresenta os valores do fluxo incremental de caixa para uma situação hipotética. Nessa tabela, os resultados mostram, por exemplo, que a Taxa de Retorno de Fischer é de 18% ao ano. Isso significa que o projeto de intensificação de reforma de pastagens é viável apenas em situações onde o CMPC da empresa ou do projeto é inferior a 18 % ao ano. Para taxas superiores a 18 % ao ano é preferível manter o sistema atual de reforma de pastagens da propriedade.

Da mesma forma, vale ressaltar que o aplicativo ATEPEC possibilita, facilmente ao usuário, a simulação de diferentes situações e, conseqüentemente, a identificação das variações nos resultados em função de alterações nos valores dos investimentos, despesas e receitas adicionais, considerados na avaliação dos dois projetos mutuamente exclusivos.

4.3. Melhoria na alimentação do rebanho

Normalmente a introdução de melhorias na alimentação de um rebanho bovino proporciona aumentos de gastos com suplementos alimentares e, também, aumentos na produtividade do rebanho, via ampliação nos índices de ganho de peso, com conseqüente redução no tempo de abate.


Tabela 3

Exemplo de quadro contendo valores de um fluxo incremental de caixa para um projeto de intensificação de reforma de pastagens perenes.



Ano Investimentos adicionais Custos adicionais Receitas adicionais Fluxo Líquido

  Pastagem Rebanho Pastagens Rebanho Rebanho  
Zero 48.000,00 161.160,29       (209.160,29)
1     26.150,00 4.597,07 75.311,24 44.564,17
2     26.150,00 4.597,07 75.311,24 44.564,17
3     26.150,00 4.597,07 75.311,24 44.564,17
4     26.150,00 4.597,07 75.311,24 44.564,17
5   161.160,29 26.150,00 4.597,07 75.311,24 205.724,46
      Taxa de Retorno de Fischer 18%
      VPL (8,75% ao ano) 71.261,67
      VPLA (8,75% ao ano) 18.202,15

Fonte: valores hipotéticos


A Tabela 4 apresenta estimativas para o tempo de recria e engorda de animais, com peso vivo inicial de 100 kg e final de 460 kg, segundo diferentes índices de ganho de peso. Assim, considerando um ganho médio diário (GMD) de 250 gramas de peso vivo, o tempo de recria e engorda do animal seria de aproximadamente 48 meses, e assim por diante.

Tabela 4

Exemplo de quadro com estimativas para o tempo de recria e engorda de animais, submetidos a diferentes sistemas de alimentação.



Projeto Peso Inicial
(em kg PV)
Ganho de Peso
(kg PV/DIA)
Peso de Abate
(em kg PV)
Tempo de Recria
e Engorda (em meses)
A 100 0,25 460 48
B 100 0,50 460 24
C 100 0,75 460 16
D 100 1,00 460 12

Fonte: Valores hipotéticos.


A Tabela 5, por sua vez, mostra que um animal com maior ganho médio diário de peso consome maior quantidade de matéria seca por dia de alimentos e possui, por conseqüência, um maior custo mensal de alimentação. Da mesma forma, a Tabela 5 apresenta estimativas de lucratividade para diferentes situações de GMD, considerando que quanto maior o tempo de abate menor o valor atual do animal comercializado. Isso significa que o ponto de máxima eficiência técnica nem sempre coincide com o ponto de máxima eficiência econômica. Ou seja, nem sempre o lucro máximo ocorre no ponto de maior produtividade.

Da mesma forma que nos estudos de casos anteriores, o aplicativo ATEPEC possibilita, facilmente ao usuário, a simulação de diferentes situações e, conseqüentemente, a identificação das variações nos resultados econômicos dos projetos alternativos, em função de alterações nos valores da taxa de juros (CMPC), do custo da alimentação para os diferentes sistemas de produção e dos preços de compra e venda dos animais.

Tabela 5

Exemplo de quadro contendo valores comparativos para o fluxo de caixa de vários projetos alternativos para a alimentação de animais
.


Custo da Alimentação Custo do Animal Receita Margem

Projetos Total no Período Média Mensal Valor Atual Valor Atual Valor Futuro Valor Atual Valor Atual
A 250,68 5,22 (222,38) (150,00) 598,00 470,68 98,31
B 222,00 9,25 (208,71) (150,00) 598,00 530,54 171,83
C 225,81 14,11 (216,49) (150,00) 598,00 552,13 185,64
D 272,09 22,67 (263,44) (150,00) 598,00 563,26 149,81

Fonte: Valores hipotéticos.


5 - Considerações finais

Não foi pretensão deste artigo discutir casos específicos e nem fazer recomendações técnicas no âmbito da pecuária de corte. Seu principal objetivo foi apresentar e discutir, com exemplos para a pecuária de corte, algumas técnicas de avaliação econômica, possíveis de ser utilizadas para auxiliar o processo de tomada de decisão neste tipo de empresa.

Lamentavelmente, ainda é pouco freqüente o uso dessas técnicas de avaliação econômica em propriedades pecuárias. Ainda hoje, a elaboração e avaliação de projetos pecuários visam, muito mais, cumprir formalidades junto às instituições financeiras (como, por exemplo, comprovar a capacidade de pagamento da empresa), do que servir como instrumento auxiliar ao processo de tomada de decisões.
A melhoria de conhecimentos, habilidades e atitudes, por parte dos produtores e dos profissionais da assistência técnica, visando à correta aplicação das técnicas de avaliação econômica, pode minimizar as incertezas vinculadas ao processo de tomada de decisões nas propriedades rurais.



Referências Bibliográficas

CANZIANI, J.R.F. Considerações sobre os serviços de assessoria econômica e administrativa a produtores rurais no Brasil. Piracicaba-SP, 2000. 66p. Plano de Tese de Doutorado. Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo.

CANZIANI, J. R & DOSSA, D. In: SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM RURAL: Administração Regional do Paraná. Avaliação Técnica e Econômica da Bovinocultura de Corte - ATEPEC. Curitiba. 2000. 42 p.

DOSSA, D. & CANZIANI, J. R. O trabalhador na administração rural. SENAR. Curitiba. 1995. 125 p.

DOSSA, D. Adoption des techniques agricoles et décision des agriculteurs: les cas de producteurs de soja au Paraná. Tese de Doutorado. Dijon, França: 1993. 435p.

NORONHA, J.F. Projetos Agropecuários. Editora Atlas, 1987.


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EPIDEMIOLOGIA E CONTROLE DA CAMPILOBACTERIOSE GENITAL BOVINA
ÍNDICES REPRODUTIVOS EM GADO DE CORTE
AVALIAÇÃO DA RESPOSTA DE ANTITOXINAS BETA E ÉPSILON DE CLOSTRIDIUM PERFRINGENS INDUZIDAS EM BOVINOS E COELHOS POR SEIS VACINAS COMERCIAIS NO BRASIL
LEVANTAMENTO DA INCIDÊNCIA DE REAÇÕES VACINAIS E/OU MEDICAMENTOSAS EM CARCAÇAS DE BOVINOS DESOSSA EM FRIGORÍFICOS NO BRASIL
EFICÁCIA DO CLORIDRATO DE OXITETRACICLINA DE LONGA AÇÃO NO TRATAMENTO NA ANAPLASMOSE EM BOVINOS SUBMETIDOS A PREMUNIÇÃO.
REAÇÕES VACINAIS EM BOVINOS: REAÇÕES NOS LOCAIS DE APLICAÇÃO DE VACINAS CONTRA CLOSTRIDIOSES
CONTROLE DA DIARRÉIA NEONATAL DE BEZERROS POR MEIO DA VACINAÇÃO DAS VACAS PRENHES COM SCOURGUARD 3 (K)/C E TRANSFERÊNCIA DE ANTICORPOS AOS RECÉM-NASCIDOS POR MEIO DO COLOSTRO
AVALIAÇÃO TÉCNICA E ECONÔMICA DA PECUÁRIA DE CORTE
DIAGNÓSTICO DE CLOSTRIDIOSES E CONTROLE DE QUALIDADE DAS VACINAS
PRODUÇÃO DE CARNE BOVINA DE ALTA QUALIDADE
USO TERAPÊUTICO DA TERRAMICINA/LA CONTRA ANAPLASMOSE AGUDA EM BOVINOS: RESULTADOS BRASIL
     
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