Durante
o processo de desossa de carcaças de
bovinos, foi realizado um levantamento de
lesões causadas pela aplicação
de medicamentos e/ou vacinas. Foi previamente
selecionado um frigorífico em cada
Estado, a saber: BA, GO, MA, MT, MS, MG, PR,
RS, RO e SP, totalizando 10 Frigoríficos.
Em cada frigorífico foram avaliados
500 animais ou 1.000 meias-carcaças
totalizando, desta forma, 5.000 animais ou
10.000 meias-carcaças. O levantamento
das lesões foram acompanhadas pela
inspeção federal e anotando
em planilha própria, os achados de
lesões de acordo com suas localizações
nos diferentes cortes comerciais (cupim, pescoço,
acém/paleta, entrecorte, contrafilé,
alcatra, picanha, coxão de fora, tatu/lagarto).
O total das porções de carne
retiradas das lesões encontradas durante
a desossa das 1.000 carcaças de cada
frigorífico foi pesado e anotado. Do
total de 10.000 meias-carcaças, 2.991
(29,9%) tiveram uma ou mais lesões,
totalizando 3.960 lesões, que resultaram
na retirada de 905,.62 kg de carne, dando
um média de 0,181 kg por carcaça
ou 0,303 kg por carcaça, considerando-se
apenas aquelas que tiveram lesões.
Acém/paleta (36%), pescoço (17,5%),
cupim (11,7%) contra-filé (9,2%), entrecorte
(7,7%) e picanha (7,2%) foram as localizações
com lesões mais freqüentes. Por
outro lado, as maiores freqüências
de carcaças com lesões por Estado
foram: BA (59%), MT (41,8%), RO (40,4%), MG
(40%), SP (39,8%), GO (37,6%), MS (14,7%),
PR (13%), RS (7,7%) e MA (4,8%). Estes resultados
mostram uma alta incidência de lesões
encontradas durante a desossa nas carcaças
mesmo após a toalete realizada pela
inspeção na linha de abate,
mostrando a necessidade de efetiva orientação
técnica sobre a maneira correta de
aplicação dos produtos com o
objetivo de minimizar o problema.
Palavras-Chave Reações
medicamentosas, lesões, desossa, bovinos.
Introdução
As aplicações de medicamentos
e vacinas têm sido fundamentais no
combate e na prevenção das
doenças em bovinos, garantindo dessa
maneira a qualidade e a produtividade dos
produtos de origem animal. A aplicação
desses insumos, entretanto, pode provocar
lesões importantes nas carcaças,
com redução da lucratividade
da produção de carne. As perdas
totais nos Estados Unidos devidas às
lesões nas carcaças foram
estimadas em US$ 55 milhões no ano
de 1991, em levantamento realizado em frigoríficos,
distribuidores, restaurantes e embaladores.
(SMITH et al., 1992) e no Canadá
estimaram-se perdas anuais de US$ 17 milhões
(DONKERSGOED et al., 1998). No Brasil, MORO
& JUNQUEIRA (1999), em um levantamento
de lesões durante a inspeção
na linha de abate, realizada em 8 frigoríficos
de 8 Estados, foi relatada a ocorrência
de 68,6% de animais com lesões, havendo
a necessidade de remoção de
1.112,79 kg de carne de um total de 4.000
bovinos examinados, que resultaram em uma
média de 0,278 kg de carne removida
por animal. Aqueles autores estimaram uma
perda anual no Brasil de US$ 11,3 milhões,
somente na inspeção na linha
de abate. O presente estudo foi delineado
com o objetivo de se realizar um levantamento
sobre a ocorrência de lesões
por aplicações medicamentosas
e/ou vacinais verificadas durante o processo
de desossa das carcaças após
a inspeção na linha de abate
e a localização dessas lesões,
bem como quantificar as perdas decorrentes
da remoção das áreas
afetadas em cortes comerciais oriundos de
animais abatidos em 10 (dez) frigoríficos
no Brasil.
Material e Métodos Este
levantamento foi realizado no período
de julho a novembro de 2000, em um frigorífico
de cada um dos seguintes Estados: Bahia,
Goiás, Maranhão, Mato Grosso,
Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná,
Rio Grande do Sul, Rondônia e São
Paulo. Além da importância
na produção de carne e presença
de um Médico Veterinário em
tempo integral no serviço de inspeção
sanitária, os frigoríficos
selecionados realizavam o processo de desossa
e envase de cortes cárneos destinados
ao mercado interno ou à exportação.
Por dia de trabalho, eram inspecionadas
50 meias-carcaças devidamente identificadas,
até atingir o número de 1.000
meias-carcaças inspecionadas conforme
procedimento usual do Serviço de
Inspeção. As lesões
encontradas no processo de desossa foram
removidas (toalete), anotando-se a ocorrência
e a localização das lesões
em formulário próprio. As
porções removidas foram pesadas
de uma só vez para cada dia de trabalho
ou a cada 50 meias-carcaças, e o
peso total foi anotado também em
formulário próprio. Foram
avaliadas um total de 10.000 meias-carcaças,
equivalentes a 5.000 bovinos de diferentes
raças e cruzamentos, provenientes
de diferentes sistemas de engorda.
Resultados e Discussões Do
total de 10.000 meias-carcaças avaliadas,
2.991 (29,9%) tiveram uma ou mais lesões,
totalizando 3.960 lesões, que resultaram
na remoção de 905,62 kg de
carne, correspondentes a 0,181 kg por animal
abatido ou 0,303 kg por meia-carcaça,
considerando-se apenas aquelas que tiveram
lesões (Tabela 1). Estas médias
não parecem muito elevadas considerando-se
por exemplo a média encontrada em
levantamento nacional nos Estados Unidos
de 0,211 kg (GEORGE et al., 1995). Entretanto,
o levantamento aqui relatado, refere-se
apenas às remoções
efetuadas durante o processo de desossa.
Considerando-se a remoção
também na inspeção
ao abate, que foi de 0,278 kg/animal (MORO
& JUNQUEIRA, 2000), as perdas totais
na linha de abate e no processamento de
desossa com a remoção de carnes
devidas às reações
medicamentosas somariam 0,459 kg por animal.
Os prejuízos econômicos seriam
de US$ 0,61 por animal, considerando-se
a cifra histórica de US$ 20 por arroba,
e o prejuízo total no Brasil seria
de US$ 18,36 milhões, para o abate
anual estimado em 30 milhões de cabeças
(ANUÁRIO DA PECUÁRIA DE CORTE,
1999). As lesões encontradas na desossa
localizavam-se principalmente nos cortes
acém/paleta (36%), pescoço
(17,5%), cupim (11,7%), contra-filé
(9,2%), entrecorte (7,7%) e picanha (7,2%)
(Figura 1). Tal observação
mostra a importância na escolha correta
dos locais de aplicação dos
produtos, evitando assim, lesões
em cortes cárneos nobres do animal
em porcentagens relativamente elevadas.
Com relação a distribuição
por Estado, as maiores freqüências
de carcaças com lesões foram
encontradas na BA (59%), seguida de MT (41,8%),
RO (40,4%), MG (40%), SP (39,8%), GO (37,6%),
MS (14,7%), PR (13%), RS (7,7%) e MA (4.8%).
Além da maneira e da via de administração
incorretas, os maiores responsáveis
pelas lesões são os medicamentos
e vacinas com adjuvantes ou veículos
de óleo mineral, principalmente as
vacinas contra a febre aftosa, ou contra
as clostridioses. Ressalte-se entretanto
que nos Estados do Sul do Brasil a vacinação
antiaftosa já foi interrompida a
partir de maio de 2000 devido àerradicação
da doença, e aos poucos as reações
provocadas pela vacina antiaftosa gradativamente
desaparecerão. Deste modo restarão
as reações devidas a outros
produtos, cujas aplicações
continuarão a requerer práticas
adequadas quanto às técnicas
e à escolha de locais corretos de
aplicação para reduzir os
prejuízos econômicos aos criadores.
Agradecimentos
Os autores agradecem a valiosa colaboração
dos Inspetores e Frigoríficos, bem
como dos Assessores Técnicos de Vacinas,
dos Laboratórios Pfizer Ltda., que
participaram deste levantamento.
Tabela 1
Incidência de lesões (%)
e peso dos tecidos removidos de carcaças
de bovinos na desossa em cada frigorífico.
| Frigorífico
|
UF |
meias-carcaças |
|
Peso
dos tecidos removidos (kg) |
| |
|
Sem
lesão |
Com
lesões |
Total
de lesões |
Total |
Peso/lesão |
Peso/Carcaça |
| A |
BA |
407 |
593
(59,3%) |
784
|
434,40
|
0,554
|
0,732 |
| B |
MT
|
582
|
418
(41,8%) |
476 |
54,50
|
0,114 |
0,130 |
| C |
RO
|
592 |
404 (40,4%) |
536
|
62,90
|
0,117 |
0,155 |
| D |
MG |
600 |
400
(40,0%) |
401
|
132,38
|
0,330
|
0,330 |
| E |
SP
|
602
|
398
(39,8%) |
697
|
59,28
|
0,085
|
0,148 |
| F |
GO
|
634
|
376
(37,8%) |
388 |
39,60 |
0,102 |
0,105 |
| G |
MS
|
853 |
147 (14,7%) |
410
|
41,65
|
0,125
|
0,283 |
| H |
PR
|
870
|
130
(13,0%) |
142
|
17,71
|
0,124
|
0,136 |
| I |
RS
|
923
|
77
(7,7%) |
78
|
41,70
|
0,534
|
0,541 |
| J |
MA
|
952
|
48
(4,8%) |
48
|
21,50
|
0,447
|
0,445 |
TOTAL |
10
|
7.009
|
2.991
(29,9%) |
3.960
|
905,62
|
0,223
|
0,303 |
Figura 1
Distribuição percentual
de lesões segundo localização
na desossa das carcaças (cortes
comerciais) |
| 1 Cupim |
7 Alcatra |
12
Maminha |
| 2 Pescoço |
8 Picanha |
13
Vazio |
| 3/4
Acém/Paleta |
9 Coxa
de Fora |
14
Costela |
| 5 Entrecorte |
10
Tatu ou Lagarto |
15
Peito |
| 6 Contrafilé |
11
Patinho |
|
Referências
Bibliográficas ANUÁRIO
DE PECUÁRIA DE CORTE. DBO RURAL.
Ano 17, no. 219, Jan-fev. 1999, 112 p.
DONKERSGOED, J, VAN; DIXON,W; VANDERKOP,
M. (1998). Injection site survey in Canadian-fed
cattle: spring 1997. Can. Vet. Journal.
, v. 39, n.2 , p.97-99.
GEORGE, M. H; MORGAN J. B; GLOCK R. D; TATUM
J. D; SCHMIDT G. R; SOFOS J. N; COWMAN G.
L; SMITH G. C. (1995). Injection-site lesions:
incidence, tissue histology, collagen concentration,
and muscle tenderness in beef rounds. J.
Anim. Sci.. v.73, n.12, p.3510-3518.
MORO, E; JUNQUEIRA, J. O. B. (1999). Levantamento
da incidência de reações
vacinais e/ou medicamentosas em carcaças
de bovinos ao abate em frigoríficos
no Brasil. A Hora Veterinária, 112:
74-77, 1999
SMITH, G.C.; SAVEL, J.W.; CLAYTON, R.P.;
FIELD, T.G.; GRIFFIN, D.E.; HALE, D.S.;
MILLER, H.F.; MONTGOMERY, T.H.; MORGAN,
J.B.; TATUM, J.D.; WISE, J.W.; WILKES, D.L.;
LAMBERT, C.D. (1992). Improving the consistency
and competitiveness of beef. The Final Report
of the National Beef Quality audit - 1991,
p. 1-237. National Cattlemen's Association,
Englewood, CO.
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