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LEVANTAMENTO DA INCIDÊNCIA DE REAÇÕES VACINAIS E/OU MEDICAMENTOSAS EM CARCAÇAS DE BOVINOS DESOSSA EM FRIGORÍFICOS NO BRASIL


 

Elio Moro1, João Otávio Bastos Junqueira2, Ossamuro Umehara1

1 Laboratórios Pfizer Ltda., Rua dos Ingleses, 569, CEP 01329-905, São Paulo-SP-Brasil
2 Falculdade de Medicina Veterinária Octávio Bastos, FEOB, São João da Boa Vista-SP-Brasil

Resumo
Durante o processo de desossa de carcaças de bovinos, foi realizado um levantamento de lesões causadas pela aplicação de medicamentos e/ou vacinas. Foi previamente selecionado um frigorífico em cada Estado, a saber: BA, GO, MA, MT, MS, MG, PR, RS, RO e SP, totalizando 10 Frigoríficos. Em cada frigorífico foram avaliados 500 animais ou 1.000 meias-carcaças totalizando, desta forma, 5.000 animais ou 10.000 meias-carcaças. O levantamento das lesões foram acompanhadas pela inspeção federal e anotando em planilha própria, os achados de lesões de acordo com suas localizações nos diferentes cortes comerciais (cupim, pescoço, acém/paleta, entrecorte, contrafilé, alcatra, picanha, coxão de fora, tatu/lagarto).

O total das porções de carne retiradas das lesões encontradas durante a desossa das 1.000 carcaças de cada frigorífico foi pesado e anotado. Do total de 10.000 meias-carcaças, 2.991 (29,9%) tiveram uma ou mais lesões, totalizando 3.960 lesões, que resultaram na retirada de 905,.62 kg de carne, dando um média de 0,181 kg por carcaça ou 0,303 kg por carcaça, considerando-se apenas aquelas que tiveram lesões. Acém/paleta (36%), pescoço (17,5%), cupim (11,7%) contra-filé (9,2%), entrecorte (7,7%) e picanha (7,2%) foram as localizações com lesões mais freqüentes. Por outro lado, as maiores freqüências de carcaças com lesões por Estado foram: BA (59%), MT (41,8%), RO (40,4%), MG (40%), SP (39,8%), GO (37,6%), MS (14,7%), PR (13%), RS (7,7%) e MA (4,8%). Estes resultados mostram uma alta incidência de lesões encontradas durante a desossa nas carcaças mesmo após a toalete realizada pela inspeção na linha de abate, mostrando a necessidade de efetiva orientação técnica sobre a maneira correta de aplicação dos produtos com o objetivo de minimizar o problema.

Palavras-Chave

Reações medicamentosas, lesões, desossa, bovinos.


Introdução

As aplicações de medicamentos e vacinas têm sido fundamentais no combate e na prevenção das doenças em bovinos, garantindo dessa maneira a qualidade e a produtividade dos produtos de origem animal. A aplicação desses insumos, entretanto, pode provocar lesões importantes nas carcaças, com redução da lucratividade da produção de carne. As perdas totais nos Estados Unidos devidas às lesões nas carcaças foram estimadas em US$ 55 milhões no ano de 1991, em levantamento realizado em frigoríficos, distribuidores, restaurantes e embaladores. (SMITH et al., 1992) e no Canadá estimaram-se perdas anuais de US$ 17 milhões (DONKERSGOED et al., 1998). No Brasil, MORO & JUNQUEIRA (1999), em um levantamento de lesões durante a inspeção na linha de abate, realizada em 8 frigoríficos de 8 Estados, foi relatada a ocorrência de 68,6% de animais com lesões, havendo a necessidade de remoção de 1.112,79 kg de carne de um total de 4.000 bovinos examinados, que resultaram em uma média de 0,278 kg de carne removida por animal. Aqueles autores estimaram uma perda anual no Brasil de US$ 11,3 milhões, somente na inspeção na linha de abate. O presente estudo foi delineado com o objetivo de se realizar um levantamento sobre a ocorrência de lesões por aplicações medicamentosas e/ou vacinais verificadas durante o processo de desossa das carcaças após a inspeção na linha de abate e a localização dessas lesões, bem como quantificar as perdas decorrentes da remoção das áreas afetadas em cortes comerciais oriundos de animais abatidos em 10 (dez) frigoríficos no Brasil.

Material e Métodos

Este levantamento foi realizado no período de julho a novembro de 2000, em um frigorífico de cada um dos seguintes Estados: Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Rondônia e São Paulo. Além da importância na produção de carne e presença de um Médico Veterinário em tempo integral no serviço de inspeção sanitária, os frigoríficos selecionados realizavam o processo de desossa e envase de cortes cárneos destinados ao mercado interno ou à exportação. Por dia de trabalho, eram inspecionadas 50 meias-carcaças devidamente identificadas, até atingir o número de 1.000 meias-carcaças inspecionadas conforme procedimento usual do Serviço de Inspeção. As lesões encontradas no processo de desossa foram removidas (toalete), anotando-se a ocorrência e a localização das lesões em formulário próprio. As porções removidas foram pesadas de uma só vez para cada dia de trabalho ou a cada 50 meias-carcaças, e o peso total foi anotado também em formulário próprio. Foram avaliadas um total de 10.000 meias-carcaças, equivalentes a 5.000 bovinos de diferentes raças e cruzamentos, provenientes de diferentes sistemas de engorda.

Resultados e Discussões

Do total de 10.000 meias-carcaças avaliadas, 2.991 (29,9%) tiveram uma ou mais lesões, totalizando 3.960 lesões, que resultaram na remoção de 905,62 kg de carne, correspondentes a 0,181 kg por animal abatido ou 0,303 kg por meia-carcaça, considerando-se apenas aquelas que tiveram lesões (Tabela 1). Estas médias não parecem muito elevadas considerando-se por exemplo a média encontrada em levantamento nacional nos Estados Unidos de 0,211 kg (GEORGE et al., 1995). Entretanto, o levantamento aqui relatado, refere-se apenas às remoções efetuadas durante o processo de desossa. Considerando-se a remoção também na inspeção ao abate, que foi de 0,278 kg/animal (MORO & JUNQUEIRA, 2000), as perdas totais na linha de abate e no processamento de desossa com a remoção de carnes devidas às reações medicamentosas somariam 0,459 kg por animal. Os prejuízos econômicos seriam de US$ 0,61 por animal, considerando-se a cifra histórica de US$ 20 por arroba, e o prejuízo total no Brasil seria de US$ 18,36 milhões, para o abate anual estimado em 30 milhões de cabeças (ANUÁRIO DA PECUÁRIA DE CORTE, 1999). As lesões encontradas na desossa localizavam-se principalmente nos cortes acém/paleta (36%), pescoço (17,5%), cupim (11,7%), contra-filé (9,2%), entrecorte (7,7%) e picanha (7,2%) (Figura 1). Tal observação mostra a importância na escolha correta dos locais de aplicação dos produtos, evitando assim, lesões em cortes cárneos nobres do animal em porcentagens relativamente elevadas. Com relação a distribuição por Estado, as maiores freqüências de carcaças com lesões foram encontradas na BA (59%), seguida de MT (41,8%), RO (40,4%), MG (40%), SP (39,8%), GO (37,6%), MS (14,7%), PR (13%), RS (7,7%) e MA (4.8%). Além da maneira e da via de administração incorretas, os maiores responsáveis pelas lesões são os medicamentos e vacinas com adjuvantes ou veículos de óleo mineral, principalmente as vacinas contra a febre aftosa, ou contra as clostridioses. Ressalte-se entretanto que nos Estados do Sul do Brasil a vacinação antiaftosa já foi interrompida a partir de maio de 2000 devido àerradicação da doença, e aos poucos as reações provocadas pela vacina antiaftosa gradativamente desaparecerão. Deste modo restarão as reações devidas a outros produtos, cujas aplicações continuarão a requerer práticas adequadas quanto às técnicas e à escolha de locais corretos de aplicação para reduzir os prejuízos econômicos aos criadores.

Agradecimentos

Os autores agradecem a valiosa colaboração dos Inspetores e Frigoríficos, bem como dos Assessores Técnicos de Vacinas, dos Laboratórios Pfizer Ltda., que participaram deste levantamento.

Tabela 1

Incidência de lesões (%) e peso dos tecidos removidos de carcaças
de bovinos na desossa em cada frigorífico
.

Frigorífico UF meias-carcaças   Peso dos tecidos removidos (kg)
    Sem lesão Com lesões Total de lesões Total Peso/lesão Peso/Carcaça
A BA 407 593 (59,3%) 784 434,40 0,554 0,732
B MT 582 418 (41,8%) 476 54,50 0,114 0,130
C RO 592 404 (40,4%) 536 62,90 0,117 0,155
D MG 600 400 (40,0%) 401 132,38 0,330 0,330
E SP 602 398 (39,8%) 697 59,28 0,085 0,148
F GO 634 376 (37,8%) 388 39,60 0,102 0,105
G MS 853 147 (14,7%) 410 41,65 0,125 0,283
H PR 870 130 (13,0%) 142 17,71 0,124 0,136
I RS 923 77 (7,7%) 78 41,70 0,534 0,541
J MA 952 48 (4,8%) 48 21,50 0,447 0,445

TOTAL
10 7.009 2.991 (29,9%) 3.960 905,62 0,223 0,303


Figura 1

Distribuição percentual de lesões segundo localização na desossa das carcaças (cortes comerciais)


1 Cupim 7 Alcatra 12 Maminha
2 Pescoço 8 Picanha 13 Vazio
3/4 Acém/Paleta 9 Coxa de Fora 14 Costela
5 Entrecorte 10 Tatu ou Lagarto 15 Peito
6 Contrafilé 11 Patinho  



Referências Bibliográficas

ANUÁRIO DE PECUÁRIA DE CORTE. DBO RURAL. Ano 17, no. 219, Jan-fev. 1999, 112 p.

DONKERSGOED, J, VAN; DIXON,W; VANDERKOP, M. (1998). Injection site survey in Canadian-fed cattle: spring 1997. Can. Vet. Journal. , v. 39, n.2 , p.97-99.

GEORGE, M. H; MORGAN J. B; GLOCK R. D; TATUM J. D; SCHMIDT G. R; SOFOS J. N; COWMAN G. L; SMITH G. C. (1995). Injection-site lesions: incidence, tissue histology, collagen concentration, and muscle tenderness in beef rounds. J. Anim. Sci.. v.73, n.12, p.3510-3518.

MORO, E; JUNQUEIRA, J. O. B. (1999). Levantamento da incidência de reações vacinais e/ou medicamentosas em carcaças de bovinos ao abate em frigoríficos no Brasil. A Hora Veterinária, 112: 74-77, 1999

SMITH, G.C.; SAVEL, J.W.; CLAYTON, R.P.; FIELD, T.G.; GRIFFIN, D.E.; HALE, D.S.; MILLER, H.F.; MONTGOMERY, T.H.; MORGAN, J.B.; TATUM, J.D.; WISE, J.W.; WILKES, D.L.; LAMBERT, C.D. (1992). Improving the consistency and competitiveness of beef. The Final Report of the National Beef Quality audit - 1991, p. 1-237. National Cattlemen's Association, Englewood, CO.


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